De volta ao futuro…

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Enfim, este é o primeiro post direto de Brasília. Novidade para mim, mesmice nas tentativas de paz entre Israel e Palestina. Outra vez mais, as negociações poderão ser colocadas à mercê dos caminhos e descaminhos do tempo e das incertezas do amanhã. Em outras palavras, é a volta para o futuro, quando uma história de paz judaico-palestina poderia ser a profecia realizável no presente.

No último domingo, teve início um incipiente processo de retomada das negociações pela paz entre Israel e Palestina. Negociações que se dariam de maneira indireta, sob a mediação dos Estados Unidos, e aceitas pelos dirigentes palestino – ratificada inclusive pela Organização para a Libertação da Palestina (OLP) -, que resolveram dar uma oportunidade para a proposta norte-americana e retribuir o apoio a ela prestado pelos ministros das relações exteriores dos países árabes (veja aqui).

Eis que repentinamente os ventos parecem soprar num sentido desfavorável. Ontem, o Ministério da Defesa israelense aprovou a construção de 112 novas casas numa colônia judaica na Cisjordânia, justificando tal ato por causa de problemas de infra-estrutura e segurança. Exatamente um dia após os palestinos aceitarem o reinício das negociações, Israel lança uma manobra que vai contra as exigências da Autoridade Nacional Palestina (ANP) e da OLP: o avanço dos assentamentos judaicos sobre territórios palestinos. Este é o ponto mais crítico nas questões atinentes à paz na região e uma manobra deveras condenada pelo governo de Obama, explicitada até mesmo no encontro que o presidente teve com o premiê israelense, Benyamin Netanyahu, no ano passado.

Não contentes com a expansão de 112 casas, hoje o Ministério do Interior decidiu aprovar a construção de mais 1.600 casas em Jerusalém Oriental. E justo que lugar Israel foi escolher para avançar com os assentamentos. Jerusalém Oriental já pertenceu a Jordânia, marcou a unificação de Jerusalém e é cobiçada pelos palestinos, por suas significações sagradas, para se tornar a capital do futuro Estado Palestino. Cerca de 14 meses de inércia, podem retornar ao estado de quietude política em torno da paz e agitações violentas nas ruas entre ambos os povos.

Como se esse duplo avanço ainda não fosse suficiente, Israel ainda anunciou nesta terça, numa conferência sobre energia nuclear em Paris, que tem interesse em desenvolver um programa nuclear com a finalidade civil (a Síria também – confiram aqui). O que seria este uso civil da energia nuclear? O ministro da Infra-estrutural declarou que o programa estará sob um estrito controle de segurança. Em se tratando de Israel, nunca se sabe ao certo o rumo que essas pretensões irão tomar. O país, embora seja membro da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), não assinou o TNP e levanta fortes suspeitas de que detenha um arsenal oculto de armas nucleares.

A situação agravou de vez para a mediação norte-americana. Um desafio a mais para Joe Biden, vice-presidente dos Estados Unidos, que hoje iniciou sua visita de quatro dias pelo Oriente Médio para conduzir as negociações indiretas pela paz. No entanto, Israel pode barganhar em cima de uma declaração de Netanyahu, que afirmou que os Estados Unidos garantiriam a segurança do país e que a parceria é inabalável, para legitimar os novos assentamentos. A princípio, os Estados Unidos deveriam mediar as negociações até que as mesmas se dessem de maneira direta. Sem princípio, a paz judaico-palestina parece uma quimera.

Sem paz no passado, nem no presente, as expectativas se voltam novamente para o futuro. O agora, o hoje, tão logo se apresenta como a iminência do fracasso.


Categorias: Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico


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