De volta ao declínio norte-americano

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Quando o assunto é a distribuição de poder no mundo, os Estados Unidos logo surgem como a superpotência. A indubitável capacidade militar, econômica e de influência cultural ainda o colocam no lugar mais alto do pódio na disputa de maior poderio mundial. Contudo, desde 1970, que o país se preocupa com seu declínio relativo. Defrontando-se com a emergência de alguns países asiáticos, a recuperação econômica do Japão, e a recuperação da Europa, para alguns, o Tio Sam deveria ditar melhor as regras do jogo e manifestar-se como uma potência hegemônica para estabilizar o jogo mundial. 

Em outra oportunidade, no blog, o Giovanni escreveu um ótimo texto sobre o tema, apontando um pouco sobre o debate atual. Esse tema do declínio está longe de se esgotar. O que o torna mais interessante é a possibilidade de observarmos nos eventos recentes, nas manifestações da mídia e da população e de pensadores, a preocupação com a manutenção do poderio estadunidense, de uma maneira mais subjetiva ou de mais explícita. 

Vamos, então, dar uma olhada em apenas duas das manifestações (implícitas e explícitas) sobre o declínio norte-americano, na mídia e no governo. 

A preocupação com o nível de desemprego e com o crescimento da economia é onde podemos observar bem essa questão. Os Estados Unidos tem, ao longo dos anos, sido vistos pelos próprios norte-americanos como gestores da ordem global. Com uma economia que produz um quarto do PIB do mundo, o papel do país é inegável. Contudo, se alguns se alegram com o mau desempenho da economia americana, Richard N. Haass, do Council of Foreign Relations (um pensador bastante envolvido com o governo, diga-se de passagem) defendeu que se é possível ver uma mão invisível nas questões econômicas, nas questões geopolíticas uma mão invisível levaria ao caos. A China, Rússia ou as potências emergentes não poderiam aceitar os custos na gestão da ordem e a ausência dos Estados Unidos não seria um bom resultado para todos os países. Para ele, os EUA deveriam recuar um pouco, colocar sua casa em ordem para depois retornar à gestão do mundo. Essa é uma tendência que também já havia sido apontada no blog sobre isso. E a preocupação com o declínio está aí muito bem manifesta. Por mais que se saiba que o Tio Sam tem um poder inegável, a procura de ressaltar que somente os EUA podem gerir a ordem é uma resposta à possibilidade de novas potencias interessadas nesse papel, leia-se, principalmente, a China. 

Isso leva à segunda preocupação, nesse caso, de cunho geopolítico. A emergência da China como potencia geopolítica e militar preocupa o Tio Sam. Depois de, como apontou o prof. Héctor Saint-Pierre em uma de suas aulas, o desvio estratégico de mais de uma década com o foco no terrorismo, os EUA retomam com a preocupação que se relaciona com sua existência política. Pude perceber isso na palestra sobre as grandes potências e a acomodação de interesses, no dia 04/04/2013, durante o congresso da International Studies Association. A resposta dos professores John Mearshimer (clique aqui e confira parte de seu pensamento na coluna teórica) e Joseph Nye Jr. (clique aqui para mais sobre seu pensamento) foi mais negativa. O primeiro apontou que era questão de tempo até os EUA desviarem sua grande estratégia para a Ásia e se preparem para a contenção da China. Nye Jr., por outro lado, defendeu que era preciso a aproximação comercial, econômica e cultural com o país e deixar o lado militar para a última opção. Contudo, a contenção militar não poderia ser descartada. A publicação do relatório anual do Pentágono para o Congresso, de 2013, mostra um pouco disso, com suas várias referencias à China e, principalmente, uma acusação de que o governo chinês estaria por trás de tentativas de espionagem pela internet, também conhecida como cyberwar. 

Ainda há uma terceira manifestação do declinismo na mídia. O principal exemplo é New York Times, que tem feito um grande lobby pela intervenção na Síria. O jornal apontou em sua mais recente pesquisa de opinião sobre as ameaças do país que a não-intervenção no conflito interno sírio era o retorno à situação de isolacionismo. Ora, Stephen Walt já criticou bem esse aspecto mas não mencionou sua relação com o medo do declinismo. Nesse caso, como no primeiro, há a preocupação de que a falta de atuação externa do Tio Sam leve à perda de poder. Há também a mesma noção de que os EUA devem gerir a ordem internacional e, portanto, devem também intervir militarmente para impor a paz quando necessário.

O declinismo norte-americano é um tema que está incutido na sociedade dos EUA e, mesmo com seu status confortável, em termos de poderio, o medo de perder lugar ainda se faz constante no imaginário da população. Precisaríamos de mais tempo e mais espaço pra trabalhar melhor essas manifestações, mas acredito que deu pra dar mostrar um pouco como isso se dá. Entre o medo de declinar, os problemas internos e potenciais intervenções externas, os EUA trilham para o futuro.


Categorias: Américas, Estados Unidos, Polêmica, Política e Política Externa


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