De qual lado?

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A crise política na Venezuela (pouco divulgada, aliás) tem muito a ver com o que ocorre no Brasil. Nessa última semana, protestos explodiram em diversas localidades do país vizinho, começando como uma alusão ao dia do Estudante e que cresceu e inflamadas por líderes da oposição se tornaram marchas contra o governo, que resultaram em confrontos violentos e em pelo menos três mortes. De certo modo, lembra um pouco o que aconteceu no Brasil ano passado (apesar de, até onde eu saiba, a derrubada do governo nem ter sido pauta por aqui). Na verdade, o que chama a atenção é como a questão está sendo tratada, e nesse ponto encontramos a principal correlação.

Vejam bem, é complicado avaliar a informação de fora. Geralmente, busca-se um culpado quando há mortes. No caso venezuelano, levando em consideração o fato de que observamos de fora, é bem inconclusivo pensar em termos de “responsabilidades”. De um lado, as fontes do governo acusam a oposição defascismo. De outro, temos reivindicações acerca de problemas sérios e indícios de violência e abusos do governo na repressão. E a polarização acaba acontecendo naturalmente: quem não está conosco, está contra. O que leva ao questionamento é pensar se realmente se torna necessário “escolher” um lado. A polarização do debate se torna realmente necessária? É preciso ficar do lado de Maduro e escorraçar os “terroristas”? É necessário pleitear a queda do governante?

No Brasil, algo semelhante há bastante tempo, mas ficou mais agudo desde o ano passado. Pegamos o exemplo lamentável do cinegrafista que morreu na semana passada. Basicamente, temos aqueles que condenam completamente a atividade dos manifestantes, e aqueles que tentam mostrar que tudo foi uma armação ou resultado de manipulação do governo para desacreditar os protestos. Tem teoria da conspiração pra tudo. E nesse meio, perdem-se aqueles que expressam livremente suas ideias e colocam pautas de fato para as manifestações, assim como as ações que poderiam ser tomadas efetiva e legitimamente pelos membros do governo.

Não falo de ficar em cima do muro – fazer nada é tão ruim quanto ser extremista. Mas quando a insatisfação extrapola limites, a repressão responde na mesma moeda e chegamos às mortes, em um movimento de reivindicação em um Estado de direito, que tem ferramentas apropriadas para isso, existe alguma coisa muito errada. A polarização tende apenas a piorar o problema – em ambos os lados. Deixar de entender o “outro” lado significa deixar de perceber soluções diferentes para problemas comuns. Cruzar a linha do extraordinário faz com que algumas soluções não tenham mais volta – o que é muito comum na vivência internacional, hoje experimentamos na vida cotidiana. É o que está acontecendo em Caracas – um dos líderes da oposição, Henrique Capriles, se mostrava contra a estratégia dos protestos por achar que não era o momento nem o meio adequado. Não foi ouvido. Agora, o governo já manda prender mentores das manifestações. Não tem mais volta.


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