De olho na OMC

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Comentamos sobre isso há alguns dias, e nessa semana saiu o resultado. O embaixador Roberto Azevêdo é o novo diretor geral da Organização Mundial do Comércio. O que significa ter um brasileiro na chefia da OMC? A rigor, nada em especial – é apenas mais um dos nossos assumindo um cargo em organização internacional e tecnicamente seu comprometimento é com a organização, não seu país de origem. 

Comparando com outras instituições, porém, foi significativo. Existe um acordo implícito originário lá dos tempos de Bretton Woods de que o presidente do Banco Mundial seja sempre um norte-americano e do FMI um europeu. Mais condomínio de poder, impossível. No caso, a OMC é herdeira de uma organização que nem saiu do papel, a OIC, que foi substituída às pressas pelo GATT, e tem grande valor justamente por ser uma instituição multilateral, em que é necessário o consenso de todos pra tomar decisões e boa parte das ações defende interesses de países em desenvolvimento. 

Bacana, e claro que vai haver um ufanismo por algum tempo. Afinal, todo o aparato da diplomacia nacional foi empregado para auxiliar nessa busca, e se comentando que a escolha é resultado de uma mudança de mentalidade. Apesar de o Brasil representar coisa de 1% do comércio mundial, a ideia é ressaltar a possibilidade de sermos um player global respeitado. É claro que existe muita politicagem nesse meio, e Azevedo é um negociador extremamente gabaritado e capaz para essa função, então sua eleição agrada gregos e troianos, colocando um administrador eficaz ao mesmo tempo em que representa essa vontade do Brasil de ser um líder significativo. A questão é, se houve tanto empenho do Brasil pra isso, alguma coisa quer ganhar em troca. Prestígio? Vantagens? E aqui entram os problemas. 

A tarefa do embaixador é difícil, de tentar ressuscitar a Rodada Doha (que nem chegou a “viver”, pra dizer a verdade) e resolver o caos dessa terra de ninguém que virou o comércio internacional desde a segunda metade dos anos 2000. A OMC surgiu com a ideia de liberalizar e tornar mais justo o comércio mundial, mas hoje em dia compensa muito mais para os países entrarem em acordos bilaterais, se fechar em blocos e que seja cada um por si. Desde que a “rodada do desenvolvimento” emperrou, a OMC não mete medo em mais ninguém e nunca se alcançaram avanços significativos como nas Rodadas Tóquio e Uruguai.

Pra piorar, guardando as devidas proporções, me lembra o caso já comentado aqui anteriormente do Conselho de Direitos Humanos da ONU, que já foi presidido pela Líbia de Kadaffi. O Brasil tem seus contenciosos contra países protecionistas, mas também é um dos que mais foi acionado contra por utilizar medidas meio sutis (ou não) de resguardar sua economia (e isso tem suas consequências: na eleição, por exemplo, os europeus apoiaram em bloco o candidato mexicano). Nada mais justo, cada país defende seu lado. Mas isso mostra como o sistema da OMC, mesmo tendo seus “dentes”, pode vir a perder muita credibilidade nos próximos anos com essa tendência de regionalização. E ter na liderança um indivíduo cujo país enfrenta severas dificuldades logísticas e de produção com o uso de medidas protecionistas definitivamente não é uma boa imagem para a organização. Azevêdo vai ter muito trabalho pela frente, pelo jeito.


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