De bobos e mentirosos

Por

Ontem foi o primeiro de abril. Na tradição original, é uma data em que celebra o “dia dos tolos”. A ideia é pregar peças nos incautos, e tem origem na Europa, quando houve a oficialização do 1º de Janeiro como início do ano-novo. Até então, em muitas partes da França isso ocorria em abril, e quando houve a mudança muita gente zombava dos desavisados. Algo como um tipo de rivalidade provinciana. Como isso descambou para um dia em que as pessoas atiravam peixes umas nas outras, é um mistério, mas da França a coisa ganhou o mundo e virou o “dia da mentira” em muitos lugares, inclusive no Brasil. 

É uma data relativamente universal, e se formos pensar, existe muita mentira (e tolos…) nas relações internacionais. Há as grandes mentiras, que mexem com países e causam guerras (lembram do Vietnã?). Hoje, por exemplo, completam-se 30 anos da Guerra das Falklands. E essa foi cheia de peças e tolices. A Argentina inventando um conflito para desviar a atenção da crise do regime militar, esperando o auxílio norte-americano (uma grande pegadinha do TIAR), ou a catástrofe militar que foi a campanha, enviando soldados inexperientes e comandantes incompetentes. 

Também há muitas mentiras (ou equívocos?), como o jogo de empurra-empurra diplomático. Ao pé da letra, a soberania é inglesa, por ocupação efetiva. Por outro, é algo escorado pela ocupação com força e uma “soberania” dos habitantes meio que artificial. Até eu que sou mais bobo quereria permanecer como súdito inglês em vez de uma república sul-americana relativamente instável. O fato é que ninguém tem uma resposta efetiva, os dois lados têm sua razão, e se a resposta fosse fácil a ONU não estaria recomendando o diálogo entre as partes pra resolver a pendenga. Quem é o bobo nessa história? Talvez quem fique se estressando com um assunto que muito provavelmente não vai causar um conflito armado tão cedo e que vai se arrastar ainda por muitas décadas de diplomacia. 

Mas também tem quem se aperte por conta das pequenas mentiras. Quem diria, por exemplo, que um plágio maroto na época em que defendia seu doutorado faria com que o presidente da Hungria, Pal Schmitt, tivesse que renunciar. A lógica é simples – se ele foi desonesto com idéias, quanto mais com o cargo mais importante do governo… Num momento em que o país tenta se recuperar da crise européia, são essas pequenas mentiras e segredos (pensem no caso Strauss-Khan, ou das festas animadas de Berlusconi) que perseguem e, num efeito cascata, mostram como o indivíduo tem sua cota de importância na vida internacional… 

Por mais que seja uma brincadeira, essa é uma data bastante significativa. Existem muitas mentiras que movimentam as relações internacionais. Ou meias-verdades. São poucas as vozes pela verdade absoluta, como o Wikileaks, que recebeu o prêmio de ser perseguido e fechado. Mas também existem muitos tolos, e a história certamente trata de desmascará-los com o tempo…


Categorias: Américas, Conflitos, Cultura, Europa, Polêmica, Política e Política Externa


1 comments
Anonymous
Anonymous

Prezado Álvaro,Pelas verdades do seu texto. Meus parabéns.FADEL, Harley L.