Das desavenças e bloqueios

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A ausência de grandes guerras no Cone Sul sempre contrastou com desavenças territoriais e conflitos menores. E essas pequenas crises foram recorrentes na história. E muito. Argentina e Brasil viveram um período de grande crise diplomática quando da construção da hidrelétrica binacional de Itaipú, sendo que a maior crítica residia na falta de comunicação e consulta, já que o rio Paraguai também era utilizado pelos argentinos. O próprio Uruguai, foi resultado dessas disputas regionais, um Estado-tampão para evitar disputas entre os governos brasileiro e argentino pela hegemonia da bacia do Prata. Outro exemplo emblemático é o caso de Chile e Argentina, que apenas foram resolver questões de deliminatações territoriais ao final da década de 1990, sendo que na década de 1980 passaram pela maior crise diplomática de todos os tempos (a questão do Canal de Beagle, que quase resultou numa guerra)


Infelizmente esse padrão de desavenças territoriais não acabou com o advento de um novo milênio. Sim, elas tomaram formas um pouco diferentes, mas continuaram. Um caso bem recente que finalmente teve o seu ultimato nos últimos dias (ou assim se espera) é o “caso das papeleras”. Questão que teve raízes em 2003, com a instalção de duas empresas papeleras às margens do rio Uruguai, gerou o maior bafafá entre Argentina e Uruguai. Os argentinos alegavam que os uruguaios não os consultaram e haviam violado o Estatuto do Rio Uruguai (celebrado em 1975). Já os uruguaios eram contra o bloqueio das pontes de acesso entre os dois países por manifestantes locais e ambientalistas. O resultado: prejuízos incalculáveis para as economias locais, aumento da tensão diplomática entre os dois países, dois processos tramitando (um na Corte Internacional de Justiça e outro no Tribunal Arbitral do Mercosul), e o pior, aumento da desconfiança.


A omissão do governo argentino na época (governo de Néstor Kirchner) frente aos protestos locais foi o que mais descontentou o governo uruguaio. A falta de consulta foi o que mais descontentou o governo argentino. Apesar das críticas de ambos os lados, parece que essa odisséia chegou a um fim na última terça-feira, com a decisão final da Corte Internacional de Justiça. O Uruguai foi considerado culpado por romper o tratado de uso do rio, mas poderá manter as empresas. Os questionamentos da população local de que as empresas atrapalham a maior fonte de renda da região, o turismo, e que poluição estava afetando a qualidade do rio, foram completamente ignorados. Por mais surpreendente que possa parecer ambos as partes se disseram satisfeitas, o que não significa que o povo argentino da região de Gualeguaychú esteja. O movimento agora é de tentativa de pacificação da região pelo fim do bloqueio da ponte que até hoje está em voga.


Mas a questão central aqui vai além dos novos ânimos dos dois países pela pacificação. O interessante aqui é que foi necessária a decisão de um tribunal internacional para que o Uruguai cumprisse suas obrigações básicas presentes nos artigos de um tratado sobre o uso conjunto do rio. O grande problema disso é que casos como esse denotam a fraqueza do nosso manco Mercosul, já que os países membros mal conseguem solucionar questões territoriais, isso quando não estão bloqueando produtos dos demais, furando tratados ou tomando atitudes protecionistas uns contra os outros. A falta de comunicação ainda é uma constante nesse curioso processo de integração.


E o pior é que questões como essa podem afetar outros setores de integração. O mais claro exemplo é o possível veto do Uruguai contra Néstor Kirchner como secretário-geral da Unasul nesse ano. Espera-se que tais discursos sejam apenas uma espécie de pressão contra a Argentina para a resolução da questão, e que os fiascos do Mercosul não transbordem para outras instiuições regionais, complicando o estreitamento das relações econômicas na região. Quem sabe um dia esse telefone sem fio que regra as relações entre países sul-americanos não dê lugar a uma linha direta de comunicação em diversas áreas. Bom, pode até ser, mas ao que parece isso não será a tão curto prazo.


Categorias: Américas, Organizações Internacionais


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