Dança portuguesa

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A coisa anda feia na Europa, especialmente em termos de eleições – ao menos, para os que estão no poder agora. Na França e na Alemanha, seus governantes sofrem por motivos diversos o peso de possíveis derrotas políticas no futuro (no caso de Sarkozy, o desgaste já comentado anteriormente aqui no blog; na Alemanha, o temor de acidentes nucleares alimentado pelo caos japonês enfraqueceu o partido de Angela Merkel, favorável ao uso de energia nuclear). Em Portugal, contudo, o resultado é mais sombrio: a saída de José Sócrates da chefia do governo abriu uma crise institucional e assombra a UE com a necessidade de um pacote de ajuda bilionário para saldar as finanças do país.

No fim das contas, é mais uma vez o lance da crise financeira e os PIIGS, fazendo mais uma vítima. Enquanto por esses lados o Brasil é aclamado como modelo de condução econômica, na Europa os efeitos da crise ainda vão perdurar. É a vez de Portugal pagar o pato, pois nenhum político quer aceitar o ônus de fazer o pedido da ajuda européia antes das eleições previstas para o meio do ano (e convocadas justamente pela saída de José Sócrates). Afinal, se a maior parte das pessoas fica encabulada ao pedir dinheiro, quanto mais um empréstimo da ordem de 75 bilhões de euros, e que implicaria em medidas pouco populares como os cortes de gastos e enxugamento do setor público.

É um remédio amargo e necessário, mas que está sendo postergado para evitar o dano político – ou, ao menos, deixar que ocorra após as eleições. Enquanto isso, as finanças portuguesas se debilitam (e o país é rebaixado em notas de risco) e já ameaçam contaminar a ainda cambaleante Espanha – e, por extensão, a Europa como um todo. Em um exemplo de como política interna pode afetar de maneira decisiva a arena externa, Portugal dança ao som de um triste fado.


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