Cuspindo no prato que come…

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[Este post manifesta minha opinião (Alcir Candido, já que este blog tem outros autores). Ou seja, sinta-se a vontade para comentar diretamente a este respeito…]

Nada melhor do que um post bem polêmico para se começar um blog, certo?

Certíssimo! Pois bem. O presidente do Brasil, recentemente, conversando com o primeiro ministro da Índia, disse que não mais quer comer a sobremesa dos ricos, numa referência à próxima reunião do G8 e à falta de influência do Brasil nas decisões do grupo.


O ministro Celso Amorim, por sua vez, disse que só aceitará o convite do Japão, que organizará o evento, caso as exigências do Brasil sejam aceitas: “Já dissemos a nossa condição para participar”.

Detalhe. O convite do Japão ainda não saiu, sendo que não passa ainda de uma cogitação.

As condições das quais se referia o ministro Amorim estão relacionadas às mudanças na distribuição do poder global pelas quais tem passado o mundo desde a crise. O Brasil quer que esta ‘nova’ distribuição de poder seja levada em conta nas decisões do G8. Segundo os estrategistas do Itamaraty, os países emergentes têm mostrado nesta crise sua força e, por isso, devem ser levados em conta nas decisões das grandes potências.

Bom, agora vamos às impressões gerais:

Ora, o Brasil não é membro do G8, seria apenas um convidado. Portanto, porque quer ter influência nas decisões do grupo? Aliás, o Brasil e outros quatro emergentes têm sido convidados há pouco tempo para pequenas partes da cúpula, antes mesmo da crise.

Além disso, o Brasil tem sistematicamente levantado o topete para os países mais ricos. Isto tem feito parte de uma estratégia de cooperação chamada sul-sul. Ou seja, entre os países subdesenvolvidos.

Não se trata aqui de se entrar no mérito de discutir se o pleito brasileiro quanto ao fato de que devem os países ricos levarem mais em consideração os emergentes é legítimo. Isto é óbvio.

O que é estranho é que o Brasil cospe no prato que come. Faz exigências em uma reunião em que nem se sabe ainda se é convidado e levanta o topete para os países que são seus maiores parceiros comerciais (com exceção da Argentina e do Mercosul). Além disso, o Brasil tem batido sucessivos recordes em investimentos diretos estrangeiros, cuja origem está nos países ricos. Independentemente do fato de que estamos sendo colonizados pelos capitalistas ou não, é indiscutível que esses e outros fatos relacionados aos países ricos tem contribuído para a estabilidade econômica inédita pela qual passa o Brasil. (Não podemos nos esquecer que os próprios emergentes também ajudaram, como as importações de commodities pela China, mas isso não justifica uma postura hostil frente aos outros)

Aliás, esta estabilidade é que justamente tem contribuído para que o Brasil faça parte dos tais emergentes e possa querer levantar o topete para os países ricos.

Agora vamos à parte do Brasil benevolente. Este mesmo que se deixa bater pela Bolívia, pela Argentina, pelo Equador e agora também pelo Paraguai. O que o Brasil conseguiu desde que começou a querer formar (e a liderar, como se não bastasse) a ‘liga da justiça do sul’?

Bom, em primeiro lugar conseguiu reforçar ainda mais a fama de imperialista junto aos seus vizinhos. Conseguiu também perder todos os cargos em organizações internacionais que disputou (Tem perdido porque os vizinhos do sul não votam em nós, diga-se de passagem), conseguiu comprar gás mais caro da Bolívia, conseguiu arrumar picuinhas na OMC na rodada Doha e agora também vai pagar mais caro ao Paraguai pela energia comprada, fora o que uma tal construtora brasileira ganhou”’ no Equador…

Recentemente, em Brasília, após fracassar em uma negociação comercial com a Argentina (novamente) Amorim disse que os argentinos estavam certos em não aceitar a proposta brasileira e que, se ele fosse argentino, também não aceitaria… sem comentários…

E no que isso nos afeta? Em muito. É só falar que agora estamos gastando dinheiro que poderia ser investido em saúde pra comprar gás mais caro da Bolívia. Ou então, o tanto de dinheiro que deixou de ser gerado no comércio de serviços de construção civil no Equador. E tem muito mais que todos certamente se lembram.

Porque, então, não adotar uma postura cooperativa TAMBÉM com os países ricos? Não é preciso esfolar os vizinhos, mas ser capacho é demais. O que o Brasil tem ganhado com isso tudo? Ninguém sabe. E, mais uma vez, cuspimos no prato em que comemos (mesmo que só na sobremesa).


Categorias: Ásia e Oceania, Brasil, Política e Política Externa


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