Cultura armada

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Nessa semana, está se completando um ano do massacre de estudantes após um atentado a bomba na Noruega. O culpado, Anders Breivik, foi julgado, ganhou cela especial e vai ter o veredicto anunciado em agosto. Porém, a semana vai ficar marcada por uma coincidência macabra, com o ataque do tresloucado James E. Holmes, um doutorando que saiu atirando num cinema dos EUA e matou 12 inocentes. 

Toda vez que acontece uma tragédia dessas, entra em pauta o tema do controle de armas. Foi assim na Noruega, no caso recente do Colorado, e mesmo quando um atirador invadiu a escola do Realengo no Rio de Janeiro. E é interessante ver como esse tema, já espinhoso, fica ainda pior nos EUA

Os candidatos à presidência, Obama e Romney, sequer mencionam o tema em suas campanhas. Todo mundo sabe como é o lobby da NRA e das indústrias de armamentos nos EUA, mas no caso, é surpreendente ver como a própria sociedade lida com isso. Eles têm problemas mesmo para tentar limitar apenas a venda de armas automáticas (como as usadas no ataque ao cinema, que servem pra muito mais que proteção pessoal…). Tive a oportunidade de entrar em contato com gente de lá, que defende o porte de armas, e a opinião é unânime: qualquer tipo de legislação que restrinja a venda de armas é coisa de “comunistas e liberais querendo arruinar nossa pátria” e sequer mencionar o tema parece um insulto para eles. Em um primeiro momento, parece algo absurdo, ainda mais pra brasileiros como nós, que vivemos num país com um controle relativamente rígido mas que ainda sofre com violência urbana muito alta, e que se beneficiaria de um controle maior em outros países (que é de onde vêm essas armas). Não temos essa cultura de portar armas, salvo casos extremos. 

Nos EUA, não. A famosa segunda emenda garante esse direito pleno, de defender cada cidadão dos EUA contra a ameaça inglesa – na verdade, a essência dela é a formação de uma milícia, mas hoje o que vale é a segunda parte, que garante a posse de armas para formar a tal milícia. Meio que uma aberração jurídica, mas enfim, eles interpretam assim há mais de 200 anos. E parece que, mesmo com as tragédias, é um risco que estão dispostos a correr, como que a chance de tragédias acontecerem compense a segurança e os milhares que foram salvos, se salvaram, ou à sua propriedade, por terem aquela escopeta guardada embaixo da cama. 

Até que ponto isso está certo ou errado? Ao nosso ver (e eu nem posso ser tão categórico, por que tem muita gente que adoraria ter sua arma por aqui), é obviamente errado que se venda armas. Basta pensar em como esse comércio alimenta o narcotráfico na fronteira com o México (quase todo o arsenal dos grupos criminosos de lá vem dos EUA). Mas, na terra do Tio Sam, os fatos da semana passada são apenas uma pedra no caminho de uma tradição muito forte e traço profundo de sua cultura (cadê o relativismo cultural nessa hora?) e, limitem a venda ou não, sempre vamos estar sujeitos a encarar esse tipo de notícia no futuro.


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