Culpado ou inocente?

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Fonte: operamundi.uol.com.br

“Nós nascemos iguais…”. Essa frase, dita assim, resume algumas ideias de Alexis de Tocqueville e se remete diretamente a um pensamento histórico norte-americano. Estou falando da chamada Tradição Liberal. Para os estudiosos de Política Externa dos Estados Unidos, tal corrente é algo já há muito sabido. A velha máxima de “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” conhecida por muitos faz parte de um movimento mais amplo, mas fácil de entender. É o Excepcionalismo Americano, cujas ideias se resumem da seguinte forma: os EUA são um país diferente de qualquer outro do mundo. Lá, todos são iguais. 

Não é à toa que exista forte patriotismo no país. Fugir desta lógica implica em quebra social e em uma postura um tanto quanto “repressiva” (não sei se este é o termo correto para se aplicar aqui) por parte do governo. É só observar, por exemplo, que em todas as eleições presidenciais norte-americanas existem várias pessoas com aquelas bandeirinhas do país sendo agitadas para todo mundo ver. O mesmo ocorre com os filmes hollywoodianos, quase sempre aparece a bandeira dos EUA em alguma cena. 

Obviamente, tanto a Tradição quanto o Excepcionalismo acabam sendo bem mais um discurso do que uma prática, mas o primeiro influencia o último e vice-versa. Três episódios recentes colocaram boas dúvidas quanto à imagem de “bom mocinho” dos EUA, sejam eles a Prisão de Guantánamo, a Prisão de Abu Ghraib e o caso Wikileaks. Sobre os dois complexos penitenciários, talvez tenha sido bem melhor George W. Bush ter assumido a culpa e afirmar que aquilo fora uma faceta vergonhosa para a política norte-americana. Não o fez e isso feriu ainda mais a moral de seu governo.

Já o Wikileaks vem causando bem mais polêmica na atualidade. A penúltima delas foi, inclusive, tema de destaque aqui na Página Internacional, conforme pode ser visto no texto “Assange no Equador?”. Disse penúltima porque a última é o tema ao qual quero chegar neste texto: anteontem, dia 28 de Fevereiro, o soldado norte-americano Bradley Manning (foto) declarou-se culpado por ter vazado uma série de informações diplomáticas sigilosas dos EUA ao site Wikileaks.

Culpado ou inocente? Há ainda denúncias que colocam Manning como “ajudante do inimigo”, dentre eles a própria al-Qaeda, e, caso a justiça norte-americana confirme esta hipótese, o soldado poderá ter decretada sua prisão perpétua. Não só parece como é contraditório o caso Wikileaks. Manning está preso desde 2010 e seu futuro é incerto. Ele tornou público nada mais nada menos do que 260 mil páginas de documentos sigilosos!

Não há resposta certa para a pergunta do título. Por fim, repito aqui as palavras do parlamentar norueguês Snorre Valen sobre o Wikileaks ser “uma das maiores contribuições para a liberdade de expressão e transparência” no século XXI. E isso não se remete a um dos pilares da Tradição e do Excepcionalismo por mim apontados anteriormente? Na frase “Nós nascemos iguais…”, o “nós” exclui Manning e quem mais colocar à prova a estratégia de política externa estadunidense.


Categorias: Estados Unidos, Mídia, Polêmica


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