Crise existencial

Por

Todos devem ter acompanhando as confusões e protestos na França que precederam a aprovação da nova legislação de aposentadoria (e que ainda continuam). A aprovação do aumento para a idade mínima de aposentadoria na última semana trouxe os prejuízos causados pelas greves (monetários, da ordem de 400 mil euros por dia, e até mesmo físicos, com toneladas de lixo pelas ruas) e o descontentamento popular. Muito contribui pra isso a desgastada imagem do presidente Sarkozy, o cara que parece uma mistura de Silvio Berlusconi com Roberto Justus, cujo governo marcado por escândalos e imoralidades teve essa reforma como a cereja do bolo da ira popular.

Ainda bem que isso não acontece no Brasil! Não, não, isso é coisa dos países ricos e envelhecidos. Mas é óbvio que se trata de uma questão de tempo para que a melhoria nas condições de vida cobre seu preço dos cofres públicos. Hoje mesmo, o país compromete boa parte do orçamento federal com a previdência, e se mantém pela força de trabalho jovem que cobre o rombo com seu trabalho e impostos. Mas um dia essa reforma deverá ocorrer por esses lados, e Deus nos acuda quando ela chegar.

Eis o drama e o paradoxo do Estado moderno. No pós-Segunda Guerra mundial, houve as condições perfeitas para a implementação do Estado de bem estar social – as garantias como o salário mínimo, previdência e auxílios diversos, que caíram como uma luva no esforço de reconstrução das economias arrasadas. Ainda que pensado no contexto de países europeus e EUA, esse modelo foi exportado a seu modo para outros lugares, como a América Latina, e resultou em grandes avanços na área social. Crise vai, crise vem, os governos tem que gastar mais e preço é cobrado, com a situação podendo ficar insustentável. Austeridade fiscal não combina com esse tipo de gastos. As soluções vão de ir pro buraco de vez a reformar essas legislações (isto é, seja qual for o remédio, é amargo).

Na Europa, o drama é a manutenção dos índices macroeconômicos previstos para a o ingresso na União Europeia, que obriga os países-membros na cortarem gastos da maneira que for possível nesse momento de crise. Na Grécia, por exemplo, já houve medidas ainda mais draconianas, como cortes de salários e demissões em massa. No caso do Brasil, é um pouco pior, pois todos esses benefícios estão garantidos na Constituição, e fica complicado mexer, por exemplo, na previdência – se fosse fácil, reforma não estaria sendo discutida há uns 10 anos. E é impossível que esse tipo de reforma não venha acompanhada de protestos e revoltas contra a retirada de benefícios que existem há gerações.

Isso remete ao anacronismo do comportamento do Estado atualmente – se ele age minimamente, com austeridade, é tachado de omisso e elitista pelos setores populares; se interfere demais, logo é assombrado pela acusação de paternalismo e irresponsabilidade. Qual a saída pra essa crise existencial?


Categorias: Brasil, Economia, Europa, Polêmica


0 comments