Crise de credibilidade

Por

Aquele papo de poder brando (ou direto) da mídia não é novidade para ninguém. Desde a revolução Francesa que esse veículo informa, influencia, oculta e manifesta informações da população. Para muitos, a mídia seria o quarto poder. Aquele que Montesquieu não considerou para efeitos do controle do Estado, mas que estaria ali, sempre presente. Mas a mídia só é capaz de influenciar e formar opiniões quando goza de credibilidade pela sociedade (ou parte dela). A confiança dos leitores é uma das mais importantes moedas de troca em uma sociedade democrática. 

Quando a credibilidade de um desses veículos formadores de opinião é balançada, dependendo do país que falarmos, a pode coisa ficar feia. E como vamos falar do Reino Unido… 

No ano passado, o tabloide News of the World (NOFTW) passou por uma dessas complicadas situações e acabou fechado. À época vieram a público, pelo periódico The Guardian (ideologicamente oposto ao NOTW), denúncias do uso de escutas ilegais e grampos de telefones de celebridades e pessoas importantes (clique aqui para mais sobre isso no blog). O jornal funcionava desde 1891, era parte do grande grupo de mídia, News Corporation, do magnata da mídia, Rupert Murdoch, e, mesmo assim, não foi poupado por seu escândalo. 

Mas a roda da vida gira de maneira irônica, e logo, aquele que se viu arruinado, pode ver um de seus  competidores seguir pelo mesmo caminho. E foi a vez da BBC. Também um dos mais tradicionais veículos de mídia do Reino Unido entrou em uma crise severa recentemente, após uma sucessão de eventos infortuitos que começaram coma  divulgação de que um dos seus apresentadores mais icônicos, Jimmy Savile, praticou pedofilia quando vivo. A notícia saiu em dezembro de 2011 e somente em outubro desse ano que a situação começou a piorar. Em outubro, um canal privado divulgou um programa com declarações de vítimas de Saville quando crianças e até David Cameron pressionou a emissora. 

A BBC complicou-se de vez quando o programa Newsnight divulgou falsas acusações de pedofilia contra um “importante político da era Thatcher” sem maiores especificações e, após especulações sobre quem esse político seria se espalharem na internet, as supostas vítimas vão ao ar e dizem ter se enganado. A omissão sobre o caso Saville  custou o  cargo do editor do programa Newsnight, e a falsa acusação, o cargo da diretora e do vice-diretor de jornalismo, e a substituição do novo diretor da emissora. Ainda houve o básico salário equivalente a R$ 1,5 milhões pagos ao diretor que ficou apenas 54 dias no cargo. Atitude que levou a críticas diretas até mesmo de David Cameron.

Segundo a Folha de S. Paulo, no dia 13 desse mês, a  uma agência reguladora de comunicações do Reino Unido mostrava que a BBC era a emissora com o maior nível de confiança do público. Essa sequência de tropeços pode derrubar essa credibilidade, tão cara à BBC, e pode custar também seu status de empresa pública. Murdoch já tem iniciado sua campanha contra a BBC, via twitter, e tem uma boa oportunidade de fazer crescer a influência de seus outros jornais.

Se no Reino Unido já há precedentes de caminhos nefastos das grandes empresas de mídia que tem sua credibilidade afetada, tudo indica que os tempos não são bons para a BBC. Todavia, diferentemente do NOTW, a BBC é uma dos maiores e mais populares veículos midiáticos do país e conta com canais de TV, jornais e notícias online. Cabe saber se isso será suficiente para abafar sua crise de credibilidade, se   ela ainda permanecerá sendo uma empresa pública e se conseguirá desviar-se desses problemas para manter sua reputação. Aguardem os próximos capítulos. 


Categorias: Europa, Polêmica


0 comments