Criando seus demônios

Por

boko haram

Após o ultraje internacional direcionado ao rapto de centenas de meninas na Nigéria, finalmente o Conselho de Segurança da ONU tomou uma decisão (após a Nigéria relutar por semanas, afinal não pega bem ter que ficar pedindo ajuda internacional…) e baixou sanções contra o grupo Boko Haram, incluindo nebulosos “congelamento de bens e embargo de armas”. Na prática, não parece que o resultado vá ser tão relevante, mas no campo das ideias significa muito – incluindo o grupo na lista de organizações terroristas como Al Qaeda e outros, praticamente dá a chancela da ONU de reconhecer aquilo como um grupo radical e verdadeira ameaça à segurança internacional. Ora, não é justamente o que eles querem?

Existe um famoso e controverso documentário da BBC britânica chamado “The Power of Nightmares”, que em três episódios esmiúça a relação existencial entre os grupos terroristas islâmicos e o movimento neoconservador nos EUA. Um dos dados mais chocantes que se constata nos vídeos é que a famosa Al Qaeda simplesmente não existia até idos de 1998 – havia um grupo de descontentes ligados ao finado Osama bin-Laden, mas sem expressividade ou agenda concreta. Porém, devido a uma série de fatores (e um julgamento fajuto) a mídia e o governo norte-americanos lançaram o termo “Al Qaeda” para designar o grupo, dando-lhe assim um nome e propósito (de fato, bin-Laden nem nome tinha para sua turma e só assumiu de fato o antiamericanismo quando os próprios EUA engoliram essas ideias). O resultado disso tudo é que hoje um grupo de meia dúzia de tresloucados, que se tivessem sido deixados de lado possivelmente nem teriam sobrevivido aos conflitos internos com outros ativistas islâmicos, foram reconhecidos como ameaça pela maior potência do mundo e criaram uma aura de interesse ao seu redor, inspirando muita gente a seguir seus passos. E com isso o grupo é uma ameaça verdadeira nos dias de hoje, como podem constatar os habitantes de Nova Iorque, Londres e Madri.

Longe de dizer que o Boko Haram deva ser ignorado, mas se o exemplo da Al Quaeda ensina alguma coisa é que dar esse “status” a grupos criminosos e terroristas geralmente apenas aumenta seu apelo. Vamos lembrar que definições de terrorismo são variadas, mas um traço comum é o fato de buscar o terror psicológico na população civil, sempre sob ameaça do desconhecido. O grupo nigeriano já tinha na conta milhares de mortes em atentados (que deveriam ser tão chocantes quanto o sequestro das meninas, mas não despertam tanto interesse na mídia…), e estando sob os holofotes da mídia internacional, não vai buscar outra coisa que não seja mais “publicidade” para suas atividades. Basta ver o duplo atentado do dia 21, em que mais de 140 pessoas pereceram. Muito provavelmente, a tendência é que os ataques do grupo aumentem para explorar a imagem criada pelas próprias vítimas. O caminho das sanções é importante para estrangular a captação de recursos dos grupos, mas não é o bastante. E pensando na fragilidade do governo nigeriano com relação a essa crise, infelizmente devemos esperar mais ataques e vítimas nas próximas semanas…


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