Cova somaliana

Por

“Esta cova em que estás, com palmos medida

É a conta menor que tiraste em vida

[…] Não é cova grande, é cova medida

[…] É uma cova grande pra teu pouco defunto

É uma cova grande pra tua carne pouca” […]

A partir dos dizeres acima de Chico Buarque, em sua música inspirada no poema “Morte e Vida Severina” de João Cabral de Melo Neto, a reflexão de hoje se volta a uma crise social tão grave (em seu âmbito) como a crise econômica norte-americana, porém muitíssimo menos noticiada. Trata-se da situação da Somália, país imerso em uma cova de fome, miséria e despreparo.

Despreparo diante de uma situação que envolve fatores ambientais, políticos, econômicos e sociais em um cenário internacional no qual as perspectivas de Assistência Humanitária ainda precisam se tornar muito mais eficientes e construídas sobre um sistema de cooperação que preze efetivamente pelo humanitarismo, e não unicamente por interesses estratégicos pontuais.

Enquanto isso, a Somália permanece em uma cova cada vez mais funda: a crise de fome se alastra rapidamente pelo sul do país e o número de mortes já é estimado em dezenas de milhares. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), metade da população do país (quase 4 milhões de pessoas) sofre direta ou indiretamente com esta crise humanitária.

Vale destacar que a chamada região do “Chifre da África” – que inclui, além da Somália, a Eritréia, o Sudão, a Etiópia e o Djibouti – se encontra em uma situação de crise generalizada de fome que afeta mais de 11 milhões de pessoas segundo a ONU devido às secas prolongadas.

Além da situação de seca, somam-se a falta de um governo efetivo e os conflitos internos na Somália para se compreender o quão grande está a cova em que a “carne pouca”do povo parece ser lançada sem piedade. Os coveiros? O governo local (ou a falta dele); os interesses geopolíticos internacionais que impedem historicamente o desenvolvimento social africano; os interesses econômicos internacionais que limitam os fundos auxílio humanitário a um país que, na opinião de muitos, parece ser tratado como insignificante; os fatores climáticos que insistem em castigar a região; e talvez muitos outros que poderiam ser listados aqui…

Se a ampliação dos programas e dos fundos de assistência humanitária são urgentes, como afirma a ONU, talvez seja necessário midiatizar cada dia mais essa temática para que se possa cobrar esse desenvolvimento dos órgãos e responsáveis. Ou talvez seja apenas necessário que nos consideremos todos responsáveis pela solução de uma crise humanitária como esta para que a Somália não se afunde cada vez mais em si mesma e em suas dificuldades que são locais, mas também globais.


Categorias: África, Assistência Humanitária, Direitos Humanos