Copenhague 2009: entre as paixões externas e os sonhos internos

Por

Parece o slogan de uma olimpíada ou de uma festividade esportiva de grande monta. Talvez o seja. Uma olimpíada do meio ambiente ou uma grande festividade ambiental, fica a escolha para o leitor, ainda que se trate da iminente Conferência de Copenhague sobre as mudanças climáticas. E quem sai à frente nesta competição: quem mais reduz a emissão de gases poluentes ou quem menos reduz, quem implementa o desenvolvimento sustentável ou quem não o faz, quem adota medidas da chamada “economia verde” e produz tecnologia limpa ou quem permanece arraigado aos antigos padrões de produção? Muitas perguntas para poucas respostas, sabe-se apenas que desde que o homem estendeu seus domínios sobre a natureza, a esta coube apenas lançar ao primeiro a fúria da imprevisibilidade: furacões, tornados, maremotos, tsunamis, vulcões, etc. Os países romperam a harmonia em sua interação com o meio ambiente, venceram-no e agora colhem os ônus dessa vitória ingloriosa: a sobrevivência incerta.


A humanidade e o meio ambiente nasceram um para o outro, para viverem como se fossem um, mas nem sempre a vida é uma profecia auto-realizável. Vieram as organizações político-sociais entre os humanos, sendo o Estado a mais importante delas, e o cumprimento da profecia tornou-se algo distante. Todavia, certamente a desvirtuação cada vez maior desse propósito viria à tona. Entre as décadas de 60 e 70, o meio ambiente entrou em definitivo na agenda global. Não nos compete agora estabelecer todos os marcos históricos da questão ambientalista, apenas nos atentarmos para o fato de que a degradação ambiental extensiva passou a comprometer a sobrevivência das gerações futuras. E o futuro se transformou no presente. De Estocolmo a ainda não concretizada Copenhague, as conferências ambientais buscam soluções aos desafios para a preservação da espécie e da biosfera.

Evidentemente, nem só de sucessos vivem as conferências desse tipo. Porém, não deveriam colecionar tantas frustrações. Depositou-se uma enorme confiança em Copenhague para avançar no combate à degradação do meio ambiente, ao aquecimento global e às mudanças climáticas. O premiê dinamarquês, Lars Rasmussen, chegou inclusive a declarar que não aceitaria outro acordo, senão uma proposta definitiva para a questão ambiental. Mas, ultimamente, os discursos se encerram no ato da fala e pouco produzem ações, tanto que Obama e outros líderes mundiais acreditam no adiamento de um pacto sobre mudanças climáticas. Um acordo com caráter de obrigatoriedade é pouco realizável, visto que não lidaria com as demandas dos países ricos e pobres simultaneamente, ou aquelas específicas entre os países ricos.

Mais uma vez, ricos e pobres digladiam na arena da questão ambiental: até que ponto atender às necessidades ambientais não comprometem o crescimento/desenvolvimento econômico? Está se criando uma nova Doha, uma “Doha Ambiental”, cuja própria sobrevivência da humanidade e do mundo deveria urgir ante as vaidades dos países. Mas, infelizmente, os Estados Unidos simplesmente são a maior economia do mundo, o maior poluidor e o país mais vaidoso: o Congresso norte-americano não está nem um pouco disposto a aprovar uma legislação sobre clima e energia, que estabeleçam metas obrigatórias contra a emissão de gases estufas. O Protocolo de Kyoto não passou de uma quimera e Copenhague tão logo começa no terreno da ilusão. Aliás, um artigo recente prefere outro termo para a capital dinamarquesa: Flopenhague (flop quer dizer “fiasco”, em inglês).

De acordo com o Secretário-Geral da Convenção da Organização das Nações Unidas para as Mudanças Climáticas (UNFCCC, sigla em inglês), Yvo de Boer, Copenhague precisaria atender pelo menos a quatro tópicos: 1) a quantidade de gases que os países industrializados devem reduzir; 2) quanto os maiores países em desenvolvimento, como China e Índia, devem reduzir; 3) como será a ajuda financeira aos países em desenvolvimento quanto às reduções; e 4) como esse dinheiro será angariado. Sinceramente, a mim não me parece tão difícil definir tais questões, pois sabemos que a redução dos índices de emissão de gases poluentes em 8% com relação a 1990 não foi possível, já existe um fundo da ONU para o meio ambiente e o IPCC apresentou um relatório sobre as mudanças climáticas em 2007 (confiram o relatório aqui). Além disso, há uma crescente mobilização da população civil em torno da questão ambiental, como explicitado pela ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva (vejam o artigo aqui). É impressionante como não se pode tratar de apenas quatro questões com respostas praticamente visíveis…

E o Brasil? Pois é, o Brasil resolveu adotar uma postura pró-ativa com relação ao meio ambiente. O índice de desmatamento da região amazônica registrou a menor taxa – prevendo a redução deste em 80% até 2020 – e o país lançou a ambiciosa meta de reduzir a emissão de gases de efeito estufa entre 36,1% e 38,9% até 2020. Interessantemente, o discurso de Lula trata da questão ambiental sem desatrelá-la da socioeconômica, “a luta contra a mudança climática é imperativa, mas deve ser compatível com um crescimento econômico duradouro e com a erradicação da pobreza”, bem como reflete sobre a criação de um fundo ambiental financiado pelos lucros do petróleo e do pré-sal. Mais interessante ainda é o posicionamento dos possíveis presidenciáveis para o próximo ano. Bom, a Marina Silva tem sido convocada para inúmeros eventos para falar sobre os problemas ambientais; a Dilma Roussef foi quem anunciou a proposta de redução das emissões brasileiras de gases poluentes; e até o José Serra entrou na brincadeira, sancionando logo no começo da semana passada a Política Estadual de Mudanças Climáticas, prevendo a redução de gases de efeito estufa em 20% até 2020.

Paixões e sonhos entremeiam a questão ambiental, suscitando uma profunda discussão sobre as necessidades reais do meio ambiente e a maquiagem política que as mesmas engendram, provocando o deslocamento dos fins para os meios. Isto é dizer, atuar em prol do meio ambiente deve ser consonante com interesses implícitos: boa relação com o congresso, marketing, eleições e, sobretudo, porque virou “moda” e todo mundo agora segue, mesmo que utilize a mais sedutora retórica. O progresso das nações é hoje mesmo uma marcha irreversível sobre o meio ambiente, marcado pela destruição e rompimento da milenar simbiose entre os humanos e a natureza.


Categorias: Brasil, Meio Ambiente


0 comments