Copa do Mundo para quem? A ótica da cidade-mercado

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Fonte: boleirosdaarquibancada.com


A pergunta do título deste texto já apareceu há muito tempo aqui no Brasil. Foi estopim e frase de impacto utilizada nas manifestações que ocorreram em junho por motivos bem conhecidos por todos nós: aumento da tarifa de ônibus, PEC 37, falta de saúde pública e, com destaque para o que vou dizer, a Copa das Confederações e a Copa do Mundo de Futebol. Recebi dia desses em casa um folheto com a lista de estádios e as datas dos jogos da Copa. Chega a ser engraçado, pois vários estádios são ilustrados por projeções de computador em imagens 3D. Muitos estão atrasados e têm investimentos caríssimos. Mas tudo em prol da paixão do brasileiro, o futebol, não é mesmo?  

Acabei de assistir a um vídeo (veja aqui) realizado pelo muito conhecido Instituto Pólis, ONG que desenvolve projetos e estudos nas áreas de cidadania, políticas públicas e desenvolvimento local, e apoiado pelo Ministério da Cultura e outras instituições. Cumpre dizer que o vídeo, em espécie de documentário com algumas entrevistas, é curto e excelente! Posso resumi-lo da seguinte maneira: comemorou-se muito a escolha do Brasil para sediar a Copa do Mundo agora em 2014, mas qual a “verdadeira verdade” que vem ocorrendo com as populações pobres e carentes que moram nos entornos dos grandes estádios das capitais? Especialistas esportivos, cientistas sociais e funcionários das Nações Unidas comentam brevemente tal realidade. No final, o que se vê é uma triste utilização da força e da coerção por parte do Estado para banir, deslocar e interceptar quaisquer tentativas das comunidades e bairros adjacentes em continuar alocadas em seus territórios. 

Pois bem, a maioria tem conhecimento do que falei no primeiro parágrafo. E, acredito, várias pessoas, mesmo que de maneira sutil, sabem do que é comentado no vídeo supracitado. Meu objetivo agora é trazer o que é mostrado para a ótica das relações internacionais. Sabe-se que o Brasil é, atualmente, um “global player” e que a escolha para ser sede da Copa ilustra esse fato. Mas como podemos observar as mudanças ocorridas nas cidades em virtude do evento? Afinal, as cidades, principalmente a partir do final do último século, também estão se internacionalizando. Tais atores participam de redes, irmanamento e detêm progressiva inserção externa. 

Obviamente, não falo de todas as cidades. Entretanto, cito as chamadas megacidades, as quais possuem mais de 10 milhões de habitantes, e as cidades globais, conceito criado pela socióloga holandesa Saskia Sassen para caracterizar tais entes políticos com extensa articulação empresarial e monetária. Exemplos? Tóquio, Londres, Nova Iorque… Mas ainda posso citar São Paulo, símbolo nacional. E de cidades globais, lembro-me de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. “Cidade show” com ilhas artificiais, o maior edifício do mundo e por aí vai. Tudo isso para quê? Para mostrar e consolidar sua imagem internacional. Afinal, não foi por acaso que Dubai conseguiu ganhar a disputa para sediar a EXPO 2020

Mas volto ao Brasil, à Copa e às nossas cidades. Os jogos serão realizados em estádios nas capitais. Pego três casos: São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Há indícios de desapropriação de casas e bairros na capital paulista e na capital carioca (conforme mostrado no vídeo para o caso do Rio). Em Brasília não há esse tipo de problema, porque no grande centro da capital federal, onde está o Estádio Mané Garrincha, não existe periferia. Quem mora no plano piloto não são pobres ou carentes. Tudo em prol para mostrar as belezas para as autoridades que lá chegam. Triste realidade… 

Com a Copa do Mundo, o Brasil estará em evidência e sob os holofotes internacionais. Qualquer erro será imperdoável! Há problema na questão das cidades promoverem suas inserções internacionais e melhorarem suas imagens? Não, até porque é algo comum hoje em dia nas relações internacionais. O cerne da questão encontra-se na mercantilização de tal inserção externa, ou seja, no que se denomina de cidade-mercado: de maneira grosseira, lógica segundo a qual a cidade não se preocupa com questões políticas, sociais, culturais, mas sim com o fomento e atração de capitais e negócios em benefícios daqueles que possuem a famosa “grana” ou “bufunfa”. 

E depois que a Copa acabar? Parece que ninguém se importa com isso e com os elefantes brancos que alguns estádios tornar-se-ão. Infelizmente, aqui no Brasil algumas cidades estão mexendo em suas estruturas institucionais, focando especialistas e dinheiro para uma perspectiva de curto prazo. No Rio de Janeiro, conforme observado no vídeo, não existe preocupação com a derrubada de casas. Removem pessoas que residem em comunidades há mais de 30 anos para um evento com duração de um mês… 

Dito isso, repito a pergunta: Copa do Mundo para quem? No caso das cidades, poderia haver um pensamento e uma estrutura de longo prazo para suas internacionalizações muito além dos jogos de futebol. Contudo, a lógica da cidade-mercado vem prevalecendo em várias delas. Serão essas cidades os palcos dos jogos e possivelmente os palcos dos protestos e manifestações iminentes nos próximos meses. Lembremos que em outubro teremos eleições presidências. E são elas que poderão acabar nos pênaltis. Não nos estádios e nas cidades-mercados, mas sim nas urnas eletrônicas… 

PS: Para os interessados no debate sobre cidade-mercado, vide texto de Luiz Cesar Ribeiro e Marianna Olinger intitulado “A favela na cidade-commodity: desconstrução de uma questão social”. O debate não está focado nas Relações Internacionais, mas demonstra como as favelas e bairros pobres passaram da ótica social para a visão de mercado nas cidades hospedeiras.


Categorias: Brasil, Mídia


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