COP-16: entre vanguardas e intenções

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[Antes de iniciar esse post, gostaria de agradecer à contribuição de três importantes amigos com quem dialoguei para obter mais esclarecimentos sobre arte: Camila Labaki de Oliveira, Maria Izabel Xavier Camargo Lima e Alexandre Paciulli Abrahão. A vocês, meus sinceros agradecimentos pelo auxílio.]


As Conferências-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COPs) têm sido capazes de criar intrigantes obras vanguardistas de arte. De um lado, a COP-15, em Copenhague, teria esboçado uma bela obra realista, tentando expor ao mundo algo próximo da realidade política, a real inflexibilidade dos principais líderes mundiais ao tentar desenvolver propostas concretas.

De outro, haveria a COP-16, em Cancun, que pintou em sua declaração final uma obra digna do cubismo. Traços por demais quadrados, esféricos e cilíndricos. Traços que fazem menção ao mundo, mas que são bem distantes dele. E assim, tem-se analisado as obrigações dispostas no acordo celebrado pelos 194 países membros da conferência, com reservas apenas por parte da Bolívia.

Ao final de doze dias de intensas negociações, diferentemente de sua homóloga no ano passado, a conferência de Cancun pareceu concentrar de maneira conjunta expectativas diferentes, pessimismos e otimismos (frente ao ocorrido em 2009) e apresentar supostas flexibilizações relativamente maiores nas posturas dos grandes poluidores.

Todavia, um olhar mais acurado pode mostrar que países como Japão, Estados Unidos e Rússia ainda mantiveram as posturas rígidas, como no ano passado, só que agora, pela pressão intensa da opinião pública e da comunidade internacional, aceitaram um acordo. Esses países foram capazes de postergar a discussão sobre a renovação do Tratado de Quioto, que expira já em 2012.

E mesmo o acordo, que poderia ser considerado por muitos uma surpresa, apresentou medidas limitadas. Os países reconhecem a importância de impedir o aumento da temperatura para além de 2º C, e, segundo especialistas, as reduções de emissões propostas poderão proporcionar um aumento médio de 3,2º C.

Dentre esses grandes pintores, um novo ambicioso artista emergiu sem grande sucesso com suas obras: a Bolívia. A postura mais polêmica que buscou uma resolução ambiciosa e, mesmo depois da conferência, ainda deseja aplicá-las.

O cubismo da COP-16 repercute nesses pequenos traços de sua declaração e oposição a real determinação dos líderes mundiais de limitar as mudanças. Apesar da declaração mais parecer uma carta de intenções e apresentar limitações, representa um passo importante. Entre um realismo e um cubismo, intenções e práticas, o quadro pintado é mais representativo que verossímil e, como disseram ativistas do Greenpeace, salvaram o processo, mas não o clima.


Categorias: Meio Ambiente, Política e Política Externa