Convívio difícil

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O ano de 2011 começou, por assim dizer, pouco propício às diferenças. Alguns fatos da última semana reafirmaram que, via de regra, ainda é o foco no que separa as pessoas que pauta suas relações, em vez do que as une. Não que isso seja novidade, infelizmente. Mas a proporção que suas conseqüências tomam acaba reverberando de maneira duradoura.

Veja, por exemplo, o caso da congressista norte-americana Gabrielle Giffords, baleada durante um evento. A hospitalização da deputada democrata, que colecionava desafetos políticos, fez com que a pauta do Congresso dos EUA dessa semana fosse paralisada (incluindo a blitzkrieg republicana contra a reforma da saúde de Obama) e pode até mesmo atrasar o último vôo do ônibus espacial Endeavour (cujo comandante é marido da deputada). No que pese o aparente transtorno mental do atirador, não podemos descartar a intolerância como motivo: Giffords é crítica da lei anti-imigração do Arizona, e um teor mais radical de repulsa, or exemplo, aos latinos (e aos que os defendem) não seria nada improvável como razão para essa chacina. Há ainda indícios de que o atirador integraria uma organização antissemita – e a deputada é judia.

De fato, a intolerância religiosa parece ser a mais perigosa. Logo no começo de janeiro houve os ataques a cristãos no Egito e no Iraque. Já no Paquistão, por exemplo, existe a tal lei de blasfêmias (já comentada aqui), oriunda das sombras do regime militar islamizado radical dos anos 80 e que faz vítimas até hoje, sendo a mais famosa o governador Salman Taseer, morto por seu segurança na semana passada. A razão? Taseer era contrário à lei (que condena à morte ou prisão perpétua quem ofender o Islã; geralmente é uma sentença de morte, mesmo para os que são absolvidos da acusação) e apoiava publicamente uma senhora condenada à morte por tal mecanismo. Uma vez mais, os que defendem os direitos do “outro” pagam caro.

E quando a intolerância religiosa se une à étnica, sendo a mistura temperada pelo vil metal, surge o caos. Vejam o caso do Sudão: o maior país africano está no meio de um processo que referendará, muito provavelmente, a separação da região sul, criando um novo pais. O conflito econômico é iminente: o sul herdará 80% do petróleo, mas as tubulações para escoá-lo ficam com o norte. Se o presidente Omar Al-Bashir não conseguir segurar o ímpeto dos mais exaltados, provavelmente o que era uma guerra civil apenas se transmigrará para uma guerra convencional entre Estados. O Sudão é um micro-cosmos da África: etnias e religiões diferentes, em conflito perene, assentadas em recursos naturais abundantes e sob o olhar atento de fora. Certamente, haverá estatais chinesas prontas a oferecer o suporte para que a produção continue sem estorvos, em troca da boa e velha blindagem nas organizações internacionais, mas esse enlace econômico vai manter em contato grupos conflitantes, e vai ser praticamente impossível controlar as rusgas entre a maioria muçulmana do norte e minoria cristã do sul. Basta ver os conflitos e escaramuças que houve no primeiro dia de votação para se ter uma ideia do que espera esse país. E na falta de mais motivos pra intolerância, o futuro presidente do Sudão do Sul prega a democracia e igualdade para todos em seu país – exceto os homossexuais…

Todo ano novo, fazemos votos de paz e prosperidade. Talvez fosse o caso de pedirmos tolerância , acima de tudo, em 2011…


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