Conversas com o futuro

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Se, em nossa coluna “Há um ano”, olhamos para trás, que tal olharmos para frente? Que tal conversarmos com o futuro? Não pelo prazer da futurologia, mas para a avaliação dos caminhos a serem trilhados pelo mundo.


Não é novidade para ninguém que, atualmente, estamos presenciando um mundo em constante mudança e movimento. Mudanças que, até pouco tempo atrás, pareciam improváveis e outras que estão se consolidando cada vez mais. Analistas de relações internacionais ou não, todos nós, expectadores de acontecimentos globais, estamos nos perguntando: afinal de contas, que momento vivemos e para onde vamos?

Há pouco tempo, o Luís Felipe escreveu sobre os Estados Unidos. Dificilmente alguém poderia dizer que o país seria tão afetado pela atual crise financeira. Tampouco poderia dizer isso sobre a Europa. Ambos foram. Os principais pólos do poder mundial estão se desgastando, comprometendo o exercício da hegemonia econômica e política. Esse fato abre espaço para os países emergentes – China, Rússia, Brasil, Índia, Indonésia, etc. – se reposicionarem no mundo e suscita a indagação sobre se esses países irão ocupar a lacuna deixada pelos Estados Unidos e Europa em relação ao gerenciamento da ordem internacional. Se sim, que tipo de ordem teremos; se não, como lidar com esses países, quando emersos e então (provavelmente) potências?

Muitos estudos (ver, por exemplo, a publicação do National Intelligence Council) estão sendo realizados para poder compreender o futuro que há de vir. De maneira geral, os cenários oscilam entre a cooperação e o conflito, questionando o resultado dessa interação entre o declínio das tradicionais potências e a emersão de novas “potências” (se, de fato, quiserem assumir este status). Ademais, o rearranjo mundial deve levar em consideração questões que, até o momento, tem figurado de maneira marginal na agenda internacional. O terrorismo é importante, como demonstrou recentemente o atentado na Noruega (vejam o post do Álvaro e mais informações aqui), mas não é determinante. Se o terrorismo permanecer como a força gravitacional que rege a agenda mundial, milhões (se não bilhões) de pessoas estarão condenadas à miséria, fome e escassez de água, xenofobias e fundamentalismos serão fomentados, isso para não falar sobre outras questões, como meio ambiente, narcotráfico, tráfico de armas, etc.

Os Relatórios de Desenvolvimento Humano do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) (link desses relatórios), os relatórios do Banco Mundial e de diversas outras organizações apontam as questões tratadas acima como riscos diversos, que vêm sendo negligenciados. Riscos muito mais “reais” do que o terrorismo ou guerras. Riscos que matam silenciosamente e podem desencadear conflitos. A “favelização” está se tornando o principal fenômeno do século XXI (vejam este impressionante relatório, intitulado “The challenge of slums”). Há chineses e indianos que precisarão comer. Africanos morrerão por alguma doença antes mesmo que balas ou facões milicianos e tribais lhes atinjam. Esses riscos também despertam a atenção porque, em geral, ocorrem nos países pobres e nos emergentes.

Ora, pessoal, a conversa com o futuro é extensa, impossível de ser exaurida neste post. O objetivo aqui é convidá-los a refletirem a respeito do momento em que vivemos e pensarmos no futuro. Na próxima semana, traremos alguns dados importantes que ilustram as transformações em curso. Lembremos que as relações internacionais, diferentes dos diamantes, não são feitas para a eternidade; tampouco os países, diferentes dos periquitos ou dos ursos, não são monogâmicos e destinados a estabelecerem interações para todo o sempre. O poder muda e a interpretação do que é importante e do que deixa de ser varia. O mundo está mudando rapidamente e nossas mentes devem acompanhar esse processo de mudança.


Categorias: Assistência Humanitária, Conflitos, Direitos Humanos, Economia, Estados Unidos, Europa


2 comments
Giovanni Okado
Giovanni Okado

Oi, Jéssica!Obrigado pelo elogio.De fato, a África deve enfrentar uma das piores secas da história neste ano, o que faz aumentar o problema da falta de alimentos. A xenofobia ou fundamentalismos diversos, embora condensada no islamismo, está se crescendo também com a extrema direita. É bom estarmos atentos a isso.Como não temos bola de cristal, podemos começar a imaginar o que vai acontecer e nos preparar para isso.Abraços

Jéssica
Jéssica

Olá,Muito boa a sua análise!Quanto aos africanos morrendo por alguma doença...vemos que a fome é quem está acabando com a vida de centenas de pessoas nesse continente.A ONU decretou semana passsada que milhares de pessoas estão morrendo por falta de comida, principalmente no chifre da África.E no que diz respeito a xenofobia, estamos presenciando varios casos, principalmente das grandes potências ocidentais para com os pertencentes do islamismo. Lamentável isso tudo, ás vezes tbm me pergunto: onde isso tudo vai parar?Abraços!