Conversando com a Teoria

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Explicar ou Entender

Até o momento, descrevemos a evolução teórica em Relações Internacionais com base em três grandes correntes de pensamento. Do realismo ao neoxmarximo, podemos ver um fino e breve fio condutor que costura todas essas teorias juntas. Apesar de diferentes no conteúdo e nas visões de mundo, resumidamente, é no método que elas se aproximam. Em outras palavras, a maneira de se fazer teoria que, antes de tudo, aponta que é possível “explicar” a realidade internacional. Essa “explicação”, até certo ponto, seria objetiva, pois partiria da observação e de se verificar as hipóteses levantadas, as relações de causa-efeito, e assim, chegar-se-ia a um resultado lógico, racional. 

Bom, e é justamente aí que as coisas começaram a complicar. Ao final dos anos 1980, um pessoal começou a criticar a visão de mundo dessas principais correntes. Basicamente, alguns autores apontavam que nas Relações Internacionais, como qualquer ciência social, é difícil obter uma explicação válida que não esteja poluída por valores, princípios e quaisquer entendimentos daqueles que explicam. O que significa que seria possível “compreender” o mundo e não o “explicar”. Ora, em termos práticos, o que isso quer dizer? 

Uma vez já usamos a analogia de como elaborar uma teoria baseado no exemplo do pôr-do-sol. Talvez fosse interessante retomar esse ponto. Quando falamos de certo João que enuncia uma “teoria do entardecer” pela observação de que o sol se punha sempre entre as 18:45 e as 19:10, podemos dizer que ele olhava pela janela de sua casa, em sua cidade. Isso significa que sua teoria é baseada em sua realidade e, seria importante saber, onde no mundo era localizada essa janela da qual ele observava. Pois caso alguém que viva no Canadá ou na China queira utilizá-la, talvez possa ver que o sol se põe em horários diferentes e, portanto, a tal teoria do João não se aplicaria. 

E é, grosso modo, esse ponto que alguns autores da Teoria Crítica, do Construtivismo, do Pós-Modernismo ou da Teoria Normativa nos mostram. As teorias levam valores dos que a escrevem – por exemplo, do lugar onde vivem, da visão de mundo da sociedade – e há sempre outros envolvidos e fatores que são difíceis de se verificar somente pela observação. O subjetivo, aquilo que não é concreto, no nosso caso do João, aquilo além dos conceitos empiricamente verificáveis, ganha importância Esse é considerado, por muitos, o “Terceiro Grande Debate” das Relações Internacionais, no qual a pergunta do “como estudar” a disciplina vem à tona de novo (para mais sobre os debates, clique aqui). As duas correntes que lutam, sem necessariamente se oporem, seriam os Positivistas (marxistas, liberais e realistas) e os Pós-Positivistas (outras abordagens que consideram o subjetivo) ou Racionalistas e os Reflexivistas (como são chamados por alguns). 

Para o segundo grupo, é importante o “compreender” o “entender”, ao invés de ser capaz de “explicar” ou até “prever”. Essa crítica ao “rigor científico”  não representa também uma mudança total na forma de fazer teoria. Como alguns construtivistas fizeram, houve quem buscou um meio termo entre o positivismo e o pós-positivismo. Até hoje, essas duas formas de pensar coexistem e interagem (para bem e para mal), sem chegar a uma conclusão sobre se é melhor “explicar”, “entender” ou um pouco de cada.  Bom, pessoal, paremos por aqui para não complicar demais. Na próxima semana continuaremos um pouco com essas questões e introduziremos algumas dessas teorias! Até lá!


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