Conversando com a Teoria

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Construindo as Relações Internacionais


Como tratamos na semana passada, alguns teóricos começaram a questionar a maneira de se atingir o conhecimento, também chamada de “ontologia” nas relações internacionais e passaram a apontar como mais interessante o “entender” do que o “explicar, já que o conhecimento jamais seria neutro. Dentre esses autores, um grupo específico passou a questionar aquela famosa noção do realismo e do liberalismo de que os Estados viveriam em um ambiente internacional de “anarquia”. 

Ora, diriam eles, o que é a “anarquia” senão um edifício levantado pelos países enquanto interagiam (Alexander Wendt em “Anarchy is What States make of it”). Em outras palavras, pelo jargão desses teóricos ditos construtivistas, se a noção de anarquia existe, ela foi “socialmente construída”. E, da mesma forma como foi antes, pode ser alterada pelas interações. A partir dessa visão, a tão bem montada “estrutura” dos neorrealistas (baseada na ideia de anarquia) cairia por terra como elemento que define a área, pois os anos poderiam mover os tijolos e alterá-la. 

 A ideia central de autores como Wendt e Nicolas Onuf, os primeiros expoentes dessas ideias em RI, era a de que o mundo que nos cerca e nosso entendimento dele é como um edifício. À medida que os Estados vão agindo entre si, vão colocando novos tijolos ou derrubando outros. E a nossa visão mundo está contaminada pela forma que colocamos nossos tijolos de conhecimento e como os atores ao nosso redor colocam os deles. Esse tal edifício em construção quer dizer que essa abordagem dá importância também para questões que não são objetivas, como a influência das ideias ou da questão do conhecimento. Eles negam que haja elementos dados sempre como certos – “anarquia”, por exemplo –, mas sem se oporem ao reconhecimento de que alguns elementos, construídos, diga-se de passagem, afetam o comportamento daqueles que atuam internacionalmente. Todavia, como dissemos antes, é importante o entendimento de como essas questões concretas afetam os Estados/outros atores e, principalmente, que pela interação é possível (e provável) que as coisas venham a mudar. 

Parece difícil e complicado. Tanto parece que até os estudiosos da área não aceitavam muito os construtivistas. Eles somente passaram a ser melhor tidos como uma abordagem para as RI a partir de meados dos anos 1990. Como nas outras teorias, não há consenso entre os autores do Construtivismo. Há desde aqueles que acreditam que o mundo existe e que somente nossa visão é construída, passando pelos que consideram a linguagem (discursos políticos, por exemplo, pela forma como são proferidos ou escritos) ou as identidades (grosso modo, como os atores se vêem e como vêem os demais) como aspectos determinantes, até que cheguemos àqueles que acreditam que tanto o mundo como nossa visão dele são construídos. 

Apesar de diferentes visões nesse grupo, a “ideia do edifício”, da construção, sustenta os pilares dos pressupostos do Construtivismo. O mundo nunca é pré-determinado. Sempre haverá um aspecto de construção social, pela nossa visão dele, pelo nosso conhecimento ou pela ação dos Estados ou outros atores. Bom, paremos por aqui para não complicar mais o que já não é fácil. Na próxima semana aprofundaremos um pouco mais nessas questões. Até lá!


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