Conversando com a Teoria

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Na semana passada, a ideia que passamos sobre o Construtivismo foi a de um edifício, em que, grosso modo, o sistema internacional e as relações entre Estados, indivíduos e organismos são feitos passo a passo, com as tradições e fenômenos criando uma “estrutura”. Isso pode parecer abstrato demais, mas quando pensamos que esse tipo de pensamento surgiu com estudos de linguística, faz todo sentido. O Construtivismo é, em essência, a questão do discurso na formação das relações entre as partes do sistema internacional, sejam formações de conflito, de dominação, ou mesmo de cooperação. Isso abre um leque enorme de interpretações, como era de se esperar. Talvez o caso mais interessante (e extremo) seja o de Nicholas Onuf, que vai servir muito bem pra mostrar essa maleabilidade. 

Onuf é considerado por muita gente quem introduziu essa vertente no estudo de relações internacionais, com sua obra mais famosa, “World of our making”, de 1989, em que relaciona a ideia do discurso e das regras. Fugindo do conceito de anarquia tradicional das RIs (com os Estados em pé de igualdade disputando poder e influência), Onuf propõe que, na verdade, há vários tipos de estruturas de dominação (como hegemonia, etc.), que são endossados ou desfeitos com base na afirmação (ou não) de certas regras, que por sua vez dependem do próprio ato discursivo dos Estados. Isso é uma coisa que depende muito de linguística, e ficaria trabalhoso demais explicar a complexidade desse tipo de ato, o discursivo, mas basta entender que no caso seria toda ação que resulta de um processo de comunicação entre os agentes no sistema internacional, e que tem como consequência justamente o reforço ou o enfraquecimento das regras que ditam o “jogo” internacional. 

Complicado? E muito, mas o importante é o resultado final: a meta de Onuf é mostrar que as relações entre os agentes não é determinada por um padrão, e sim criada por eles, por meio do próprio relacionamento. É bom perceber inclusive essa diferença de nomenclatura – em teorias mais tradicionais (liberalismo, realismo, etc.), fala-se em “atores”, com papéis definidos. Para constutivistas (e pós-modernos em geral), fala-se em “agentes”, aqueles que têm vontade própria e fazem seus caminhos. Claro que isso é uma pequena fração do que Onuf propõe. 

Mas, para não nos complicarmos demais, vou encerrar com um causo interessante que aconteceu ano passado, em Brasília, que vi pessoalmente, e pode mostrar bastante sobre seu pensamento. Aliás, Onuf é figura fácil de encontrar em eventos por aqui, ele inclusive dá aulas no Brasil, e até fala português. Enfim, na ocasião Onuf foi bem taxativo ao responder uma pergunta, afirmando com um leve sorriso que a realidade não existiria para ele (e que teve como reação quem fez a pergunta abrindo os braços em desaprovação, incrédulo). Claro que não devemos levar isso ao pé da letra, como o interlocutor de Onuf. Não é que estejamos numa matrix ou coisa do gênero, nem que Onuf defenda um relativismo absoluto, mas sim que ele não aceita a realidade, nas relações internacionais, como pré-existente. A percepção das relações, estruturas e mesmo dos próprios agentes depende do modo como cada um “absorve” essas informações, e de como compartilha delas com os demais. É dessa relação de duas vias que podemos entender as relações internacionais. Digo “podemos”, por que não existiria uma verdade absoluta. Mas vamos deixar isso pros críticos e pós-modernos mais radicais. Até a próxima!


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Anonymous
Anonymous

Prezado Alvaro,BELISSIMO TEXTO. Ate o proximo...Harley