Conversando com a Teoria

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A ponte construtivista

 

Nas últimas semanas temos tratado da perspectiva construtivista em nossa coluna. Apresentando um caminho diferente do “positivismo” teórico, esses autores nem sempre negam ou desvalorizam o conhecimento produzido anteriormente nas Relações Internacionais. Como toda boa teoria na área, podemos adicionar “s” ao final para mostrar a pluralidade de visões. Enquanto há perspectivas mais radicais ou extremas, como a de Nicolas Onuf (que chegou até a negar a existência da realidade), há também os mais moderados. 

E é nesse grupo que se insere Alexander Wendt. Autor que já tratamos brevemente quando introduzimos o tema, ele é capaz de representar uma ponte entre os “positivistas” e os “pós-positivistas”, unindo ideias que a princípio não pareceriam ter ligação. Em seu artigo, “Anarchy is what states make of it”, Wendt defende que, diferentemente do que vinha sendo feito até então, as identidades não poderiam ser vistas como “algo de fora” (exógeno) à questão dos interesses ou da anarquia. Na visão do autor, as “identidades” e os “interesses” seriam elementos inseparáveis, conceitos muito dependentes. 

Como assim? Bom, para compreendermos, é preciso que retomemos as demais teorias que abordamos nas semanas anteriores. 

Os neorrealistas afirmavam que o sistema internacional seria caracterizado como de “auto-ajuda”. Em outras palavras, cada Estado atuaria apenas no sentido de atender seus próprios interesses e essa situação seria definidora da ação externa dos países (clique aqui para mais). A preocupação deles seria com a “estrutura”. De maneira oposta, os neoliberais afirmavam que as instituições (clique aqui para relembrar) poderiam gerar convergências de interesses frente a essa situação de anarquia. Estariam mais preocupados com o “processo”. 

Retomando o argumento, onde entraria a tal relação entre interesses e identidades? Wendt nos mostra que a noção de “auto-ajuda” não serviria para caracterizar o sistema internacional, pois não existe independentemente da ação dos Estados. Seria, portanto um “processo”, uma “instituição” construída e não “estrutura”. Os Estados não teriam, portanto, concepções de si mesmos e dos demais antes de interagirem entre si. A relação entre eles é que define esses interesses. A partir da socialização, se construiriam identidades que organizariam os interesses. Daí a relação entre esses dois conceitos. 

Talvez com um exemplo fique mais claro. Pensemos em um entregador de gás qualquer. Agora imagine que, hipoteticamente, não se usar mais gás, e a sociedade “esqueceu” o que esse emprego representa. Nesse caso, tanto a posição do dono da empresa de gás quanto a do entregador deixariam de existir, e perderiam o sentido. Portanto, “empregador” e “empregado” não existiriam antes do emprego. Wendt usa outro exemplo também. A Guerra Fria deixou de existir quando, independentemente da razão, os Estados Unidos e a União Soviética deixaram de ser inimigos. Os interesses mudam quando as visões mudam. Em outras palavras, quando as identidades mudam. 

Por isso, Wendt representa uma espécie de “ponte” entre os neoliberais e sua visão de “instituições” e os construtivistas. Diferente de Onuf ele não nega a realidade, a existência dos Estados como principais atores no ambiente internacional e nem mesmo da anarquia. Aponta apenas que as interpretações da “auto-ajuda” sem considerar as identidades têm levado a resultados simplórios e enfraquecido as análises. Bom, esperamos ter deixado um pouco mais claro essa complexa perspectiva. Até a próxima semana.

[Para uma interessante entrevista com Wendt, clique aqui]


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