Conversando com a Teoria

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Atemporalidade das relações internacionais

A tarefa dos estudantes de política internacional é a de construir a partir do passado sem serem por ele aprisionado, de compreender tanto as continuidades como as mudanças.” – Joseph Nye

É hora de conversarmos com a teoria! Chegamos agora ao primeiro post desta nova coluna. Antes, porém, de entrarmos nas teorias propriamente ditas, convém uma análise mais ampla sobre a idéia de relações internacionais. Será que só podemos falar em relações internacionais a partir da Paz de Vestifália, instituída em 1648 (trataremos melhor disso em outra ocasião)? Tecnicamente, sim. Mas isso não significa que mesmo em tempos anteriores a Cristo não possamos encontrar preocupações e elementos que já presentes nas vindouras interações entre nações e que conformariam as elaborações teóricas de dois milênios depois.

Embora pareça estranho, acreditem, internacionalistas de plantão e acadêmicos de profissão voltaram seus horizontes a eras tão remotas. À parte das contribuições da filosofia clássica, dediquemos este post a duas problemáticas fundamentais que perpassam por toda a história da humanidade: a guerra e a paz. Ressalta-se que ambas são congênitas ao surgimento das Relações Internacionais como disciplina acadêmica, em seu nascedouro galês, e, por muito tempo, constituíram-se com a linha-mestra para as construções teóricas.

Sob o viés belicoso, há pelo menos cinco séculos antes de Cristo já despontava a literatura da guerra na figura de Sun Tzu, um filósofo-estrategista chinês. O autor tornou-se conhecido pelo seu famoso livro “A Arte da Guerra”. Logo no prelúdio de seus escritos, ele afirma que “A guerra tem importância crucial para o Estado. É o reino da vida e da morte. Dela depende a conservação ou a ruína do império.”

Por outro lado, no tocante às condições propícias à paz, formulou-se uma literatura bastante esparsa, cujo enfoque se deu essencialmente no ser humano. Enfoque que inclusive se aproxima das concepções primordiais dos direitos humanos. Entre os anos 600 e 480 a.C. se constata o período axial da humanidade, ou seja, um momento em que coexistiram, mas sem se comunicarem entre si, cinco dos maiores doutrinadores de todos os tempos: Zaratrusta (Pérsia), Buda (Índia), Confúcio (China), Pitagorás (Grécia) e Dêutero-Isaías (Israel). Foram esses ilustres personagens que enunciaram grandes princípios e estabeleceram diretrizes fundamentais para a vida que vigoram até hoje.

Não obstante, o destaque maior coube a Tucídides, quem, para muitos, é considerado o analista pioneiro das relações internacionais, termo este que para ele remetia-se às relações conflituosas e competitivas entre as antigas cidades-estados gregas, a Grécia e os impérios vizinhos (Macedônia ou Pérsia). O historiador analisou todo o contexto em que se desenrolou a Guerra do Peloponeso (431 a.C.), evento que sacramentou o fim da civilização grega. Em um determinado momento, a ascendente Atenas – o centro político e civilizacional grego – começou a formar alianças com outras cidades-estados e compôs a Liga de Delos, a qual paulatinamente ia ganhando proeminência. Por sua vez, a notoriedade da Liga deixou Esparta – famosa por seu exército imbatível – bastante temerosa, forçando-a a delinear alianças com outras cidades-estados e fundar a Liga do Peloponeso. O óbvio e fatídico resultado desse embate foi a guerra.

Pois é, pessoal. Esta breve conversa nos convida a um olhar cuidadoso sobre o passado distante. Nem sempre tudo vem com a aplicação de um termo – no caso, relações internacionais – e a definição de uma teoria. Há uma sociologia do conhecimento que paramenta ambos. Robert Gilpin incitaria a pergunta: os estudantes de Relações Internacionais do século XX sabem alguma coisa que Tucídides desconhecia sobre o comportamento dos Estados? Seguimos conversando…


Categorias: Conversando com a Teoria, Defesa, Paz, Segurança


2 comments
Giovanni Okado
Giovanni Okado

Obrigado pelo elogio, Raphael.É sempre bom ressaltar que determinadas idéias, embora apresentada como preocupações originais, já têm um antecedente histórico. E isto nos permite ampliar os horizontes de pesquisa, de maneira a melhor entender como certas teorias cunharam seus conceitos.Abraços

Raphael Lima
Raphael Lima

Acho que a seção começou bem interessante, tocando em um ponto que poucos pensam ao falar de Relações Internacionais.Parabéns pelo post!Abraços