Conversando com a Teoria

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E voltamos hoje com a mais interessante série de postagens realizada pela Página Internacional: o Conversando com a Teoria! Desde Maio do presente ano não fizemos outro texto que envolvesse as teorias de Relações Internacionais, propriamente ditas. Mas, por que teorias? Não podemos falar em conceitos, temas, visões, conceitualizações de Relações Internacionais? É este o motivo principal do título acima vir com um ponto de interrogação ao seu final. 

É um pouco confuso, entretanto vamos ligar os pontos. As Relações Internacionais, enquanto disciplina, são muito recentes, tendo como marco inicial os meandros da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Mesmo assim, somente com o segundo conflito mundial (1939-1945) elas se consolidaram. Daí veio a Guerra Fria, a qual terminou, de fato, apenas em 1991 com a queda da União Soviética. Foi durante este período que o Realismo ganhou destaque e concretizou-se como a principal tradição teórica desta área. (Veja aqui a postagem da Bianca sobre Realismo) 

Durante estes acontecimentos, foram surgindo os famosos debates teóricos das Relações Internacionais. Vieram o primeiro, segundo e, por fim, terceiro debates para se ter uma visão didática da disciplina. Eles não foram regulares, não aconteceram linearmente e, de certa forma, até hoje não tiveram um fim em si. Ademais, o que se enfatiza é o fato de se caracterizarem pelo embate de ideias e, obviamente, teorias. (Veja aqui a postagem do Giovanni sobre os debates em RI) 

E assim “se digladiavam” Liberalismo, Realismo, Tradicionalismo, Behaviorismo, Idealismo, Neorealismo, Neoliberalismo e por aí vai… ISMOS e mais ISMOS! São necessários ainda nos dias de hoje? De acordo com Stephen Walt, um importante professor e pesquisador da área, existem três abordagens dominantes nas Relações Internacionais: a realista (leva em consideração a distribuição de poder entre os Estados), a liberal (tem enfoque nas transições e expansões democráticas, bem como num Sistema Internacional mais descentralizado e institucionalizado) e a construtivista (também denominada de “idealista” tendo como ponto central as mudanças nas normas internacionais envolvendo desde soberania estatal até Direitos Humanos). Por fim, este mesmo autor diz o seguinte: todas as teorias revelam as falhas políticas mundiais e são imprescindíveis para os internacionalistas! Mas elas são perfeitas? 

A resposta é não! Outros expoentes como Ngaire Woods nem consideram estas escolas como teorias, mas sim como perspectivas. Para ela, o problema das teorias são as rotulações. Ou uma coisa é realista ou liberal! Ou uma coisa é tradicional ou construtivista! É assim que fazemos inúmeras vezes, não tem como escapar. Os ISMOS são essenciais para as Relações Internacionais, todavia possuem falhas e incitam a criação de “cegos teóricos”. 

Por conseguinte, cabe a pergunta: por que não pensar em algo mais pontual e “simples”? Por que não utilizarmos conceitos ao invés de teorias? Aqui no Brasil, o Professor Emérito Amado Luiz Cervo defende esta ideia de maneira ímpar. Inclusive seus pensamentos estão condensados no seu texto intitulado “Conceitos em Relações Internacionais”. A leitura vale a pena e uma parte da conclusão merece ser transcrita aqui: “Contribuir para o fim das teorias de relações internacionais e para sua substituição por conceitos aplicados às relações internacionais propõe-se como caminho para transição do sistema internacional posto a serviço de interesses […]” (p. 24). 

Sendo assim, tentarei realizar ao longo das próximas semanas um estudo sobre conceitos de Relações Internacionais, que vai, em partes, ao encontro do exposto no parágrafo a seguir. Diferente da visão de Cervo, meu ponto de vista não será fugir da “dominação intelectual” das teorias do norte. De maneira contrária, sairei apenas do campo teórico e passarei para o campo temático-conceitual. Esta foi tão só uma introdução para o que se seguirá nas próximas semanas. Por ora, basta dizer que existem uma nova literatura e uma nova agenda nas Relações Internacionais cujas bases se sustentam não mais em questões de segurança, defesa e diplomacia central. Hoje, tudo é econômico, cultural, tecnológico, jurídico… É tudo junto e misturado, uma verdadeira governança. E o que é isso? Fique atento ao próximo post da série e, se desejar, critique e ajude no debate.


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