Conversando com a Teoria

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Panorama Histórico do Sistema Internacional – I

Olá, pessoal. Vamos a mais um post desta nova coluna. É hora de conversar mais um pouco com a Teoria, ainda que não seja a Teoria das Relações Internacionais propriamente dita. Antes de adentrarmos a ela, precisamos passar por algumas considerações preliminares. Assim, ocuparemos este e o próximo post para tratarmos do sistema internacional, todavia, sem todo o aprofundamento de Hedley Bull e Adam Watsom (deles, trataremos mais para frente). (Obs: não se diferencia aqui sistema internacional ou interestatal de sistema de Estados.)

Que tal começarmos com uma breve passagem do livro As Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino? Num dado momento, estava Marco Polo descrevendo uma ponte, pedra por pedra, quando Kublai Khan perguntou: “Mas qual é a pedra que sustenta a ponte?” Marco argumenta que uma ponte não é sustentada por uma ou outra pedra, mas pela linha do arco que elas formam. Ao ouvir isso, Kublai permanece em silêncio, refletindo, e depois indaga por que Marco lhe falava das pedras quando na verdade era o arco que importava. Em sábias palavras, Marco lhe responde: “Sem pedras não há arco.” Hoje, parece muito fácil ver o sistema internacional como o “arco” e os Estados como as “pedras”, afinal a população mundial vive em Estados independentes, os quais influenciam profundamente o modo de vida entre todos os povos e, em suas interações mútuas, compõem um sistema, o sistema internacional. Mas teria sempre sido assim?

Ora, em primeiro lugar, o sistema internacional não é algo dado, e sim construído. Não fora determinado por Deus, tampouco pela natureza, mas produto de construções humanas empreendidas em épocas determinadas, fazendo-o se configurar com uma organização social que apresentou suas vantagens e desvantagens no decorrer do tempo. Em segundo, as relações internacionais englobam uma complexidade de fenômenos e envolvem uma diversidade de atores que dificilmente poderíamos conceber um sistema internacional historicamente predeterminado e estático.

Se pensamos desta maneira, então podemos transcender as fronteiras do tempo e buscar as raízes históricas do sistema internacional para além da criação dos Estados, em 1648, ou da própria palavra internacional, cunhada por Jeremy Bentham, em 1780. Portanto, encontramos a primeira demonstração de um sistema de Estados – ainda que organizado internamente – na Grécia Antiga, uma vez que abrangia um grande número de cidades-Estado e cujas interações, sobretudo, estavam assentadas numa linguagem e religião comuns. Com a ruína da civilização grega decorrente da Guerra do Peloponeso, o Império Romano alastrou-se por quase todo o mundo antigo – isto é, pela Europa, Ásia e África –, prefigurando uma restrita concepção de um sistema internacional, cujas relações eram marcadas pela submissão à Roma ou pela revolta.

O declínio do Império Romano Ocidental e o início da Era Medieval engendraram um novo arranjo para o mundo da época – abarcando a concepção geográfica supracitada. O sistema internacional passou a ser arquitetado por Estados que coexistiam nem de modo independente, nem soberano, e tampouco tinham suas fronteiras claramente demarcadas. Em tal configuração, o poder e a autoridade estavam organizados sob bases políticas e religiosas – isto é, entre os reis e o papa -, com a preponderância da cristandade sobre os ditames políticos. Dado que a Europa se dividia em feudos, com cada senhor feudal detendo o domínio sobre sua propriedade e seus súditos, sobrepujou-se a autoridade dos reis e a Igreja permaneceu como a entidade mais influente e mais ligada ao modo de vida da população medieval.

Vamos fazer um pit stop para reflexões acerca da historicidade do sistema internacional. Na semana que vem, continuaremos com esta viagem. Até lá!


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