Conversando com a Teoria

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Por que uma teoria das Relações Internacionais?

Que dúvida esta, não? Mas acreditem, pessoal, uma teoria não é só um emaranhado de conceitos aprisionados num punhado de papel que deixam os estudantes de Relações Internacionais loucos e os professores sedentos pelo tal do marco teórico nas pesquisas. Ela confere inteligibilidade a uma diversidade de fenômenos e também orienta a prática. O atual chanceler brasileiro (e ex-professor de teoria das Relações Internacionais da UnB), Celso Amorim, afirma: “aqueles que não conhecem a teoria não exercem a intuição que aconselha qualquer decisão”.

Imaginemos uma situação hipotética. Um certo alguém, chamado João, passa todas as tardes do seu dia a contemplar o posicionamento do sol. Depois de muito tempo procedendo da mesma forma, João começa a perceber um fato que até então não lhe ocorria: o sol sempre se punha em torno das 19h. Intrigado com isso, ele começa a investigar para ver se isso realmente se comprova. Passado outro período de tempo, João enfim constata que, de fato, o sol se põe entre 18h45 e 19h10 e resolve enunciar a “teoria do entardecer”. Depois desse trabalho, caber-lhe-ia questionar a quem seria endereçada essa teoria. Poderia ser do interesse, por exemplo, de indivíduos desejosos de regularem sua atividade diária ou de clubes que oferecem atividades de lazer.

Passemos agora para as relações internacionais, onde o sol de João não se põe facilmente no mesmo horário. Não há apenas uma teoria, senão várias. Como e o que teorizar? Hoje em dia, cada vez mais tem se falado que o mundo está internacionalizado, integrado e globalizado, os assuntos internacionais ocupam um grande espaço nos noticiários, as questões ambientais começaram a se apresentar como uma questão sobremaneira pertinente, dentre outros acontecimentos. Por outro lado, expectativas louvadas foram frustradas: não se superou definitivamente a guerra e tampouco a esperança de um desenvolvimento equânime e justo produziu igualdade. Com tantas coisas, fica a pergunta: uma teoria pode dar conta de tudo isso?

Evidentemente, não. Uma teoria de Relações Internacionais não apresenta uma resposta única para a compreensão de todos os fenômenos que ocorrem no cenário internacional, embora no período da Guerra Fria tiveram a pretensão de fazê-lo. Ademais, acrescenta-se que a disciplina acadêmica é perpassada por desacordos teóricos, coexistindo tanto um embate entre as diferentes abordagens como no interior delas. No entanto, ainda que a diversidade seja o traço marcante do arcabouço teórico das Relações Internacionais, ela também contribui no sentido de fornecer elementos analíticos riquíssimos para a compreensão dos fenômenos internacionais, podendo um mesmo fenômeno ser interpretado de outra maneira conforme a teoria escolhida.

Pois é, pessoal, neste ambiente teórico controverso – às vezes confuso -, mas fundamental, é que iremos agora mergulhar. Esperamos que as teorias possam ajudá-los na interpretação do que ocorre no mundo, com João’s e os seus sóis. O convite está aberto!


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