Conversando com a Teoria

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Teoria das Relações Internacionais: uma dúvida imanente

[Pessoal, peço desculpas pela extensão deste post, mas ele é bem importante para adentrarmos especificamente no campo teórico. Tentei não enfocar apenas as teorias de Relações Internacionais e fazer comparações para ajudar no entendimento. Espero que gostem. Não poderia deixar de mencionar que este post teve a colaboração do meu irmão, Giuliano Okado, aluno do 4º Ano de Engenharia Mecânica da Unicamp.]

Vamos recordar do nosso último artigo, no qual existia um tal de João. Contemplando o céu, ele elaborou uma teoria. Porém, como vimos, nem sempre uma teoria tem validade universal. E, também, ela pode se estender por anos, mas tende a ser contestada ou reformulada. Por exemplo, pensou-se por muito tempo que a Terra era o centro do universo e que todos os corpos celestes gravitavam em torno dela, até que Nicolau Copérnico, no século XV, provou o contrário: na verdade, o Sol é que ocupava a posição central e a Terra, bem como os demais corpos celestes, giravam em torno dele.

De modo geral, uma teoria mantém a sua validade enquanto se mostra capaz de explicar uma dada ordem de fenômenos, e, mesmo submetida a freqüentes críticas, consegue se “safar” delas. Fazendo alusão a Thomas Kunh, à medida que as falhas excedam as explicações e justificações, a teoria cai no descrédito. A desconstrução é chave para a evolução e progresso do conhecimento, e as teorias exercem um papel primordial nesse processo – obviamente, a prática também influi decisivamente no conhecimento.

Por outro lado, as lacunas teóricas são fundamentais para a completude do pensamento. Certamente, todos conhecem um sujeito chamado Albert Einsten; talvez pela fatídica invenção da bomba atômica, esquecemo-nos de suas grandes contribuições para a ciência, dentre as quais, a teoria da relatividade. Esta, por sua vez, trouxe um complemento para a mecânica newtoniana, que previa as equações de movimento de um corpo. Enquanto a primeira aplicava-se a corpos com velocidades próximas a velocidade da luz, a segunda destinava-se a corpos com velocidades deveras inferiores. Encerremos nossas considerações iniciais com uma frase do próprio Einsten, “Nenhuma soma de experiências é suficiente para provar que estamos certos, mas basta uma para provar o contrário”.

Partindo de uma visão geral sobre o pensamento teórico, concentremo-nos agora mais especificamente na disciplina de Relações Internacionais. Em 1919, na Universidade de Wales, em Aberystwyth, foi criado o primeiro departamento próprio e, basicamente, a disciplina se predispôs a estudar as causas da guerra e as condições para a paz, refletindo as preocupações de um mundo imerso na Primeira Guerra Mundial.

Desde a criação, ocorreram pelo menos quatro grandes debates – os quais exploraremos noutra oportunidade – na área de Relações Internacionais que contrapuseram diferentes teorias. O que é válido ressaltar é que as contraposições e os embates teóricos contribuíram significativamente para o aprimoramento da disciplina. Um exemplo ilustrativo: se, num primeiro momento – entenda-se, após a Primeira Guerra Mundial –, o liberalismo saiu-se perdedor do chamado Primeiro Debate, vencido pelo realismo, nada impediu que os teóricos liberais revisassem suas premissas e revigorassem seu pensamento para voltar com mais força no imediato pós-Segunda Guerra.

Ainda assim, o pensamento liberal não vingou. Seu reavivamento só obteve êxito na década de 1970, com os chamados teóricos da interdependência ou do neoliberalismo. O realismo, até então preponderante, sofreu profundas críticas e passou por reformulações, culminando em sua inovação teórica: o neo-realismo. Vejam, caros leitores, que mais uma vez encontramos o embate teórico inicial. Liberais e realistas são como geocêntricos e heliocêntricos, respectivamente; liberais e neoliberais – ou se preferirem, realistas e neo-realistas – são como Newton e Einsten, também respectivamente.

Pode parecer uma ligação bastante perigosa comparar as ciências exatas com as ciências humanas, mas não nos esqueçamos que cada vez mais o conhecimento tem adquirido uma face interdisciplinar, isto é, pode ser compartilhado por diversas disciplinas. Note-se, por exemplo, a questão da morte: se, num momento inicial, ela era objeto de estudo da religião e da filosofia (ciências humanas), hoje, ela também é estudada pela física (ciências exatas), vide a mensuração das chamadas “experiências de quase-morte”.

Cada vez mais nos deparamos com um mundo bastante complexo e as respostas para as nossas perguntas nem sempre estão a nossa vista. Teorizar é exercitar constantemente as nossas dúvidas, é fazer com que perdure a máxima socrática “Só sei que nada sei.”. As teorias não oferecem respostas concretas aos fatos, apenas elucidam a compreensão deles. Podemos nos sentir iludidos por nunca conseguirmos entender em definitivo a lógica que movimentam as coisas ao nosso entorno, mas, como diria Fernando Pessoa, “Ser descontente é ser homem/Que as forças cegas se domem/Pela visão que a alma tem!”. Sejamos então homens – e também mulheres – movidos pelo ímpeto do saber, acima de tudo, mas com a convicção da dúvida imanente que pulula em nosso intelecto.


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