Conversando com a Teoria

Por

Montando um quebra-cabeça teórico

Quem nunca brincou de montar quebra-cabeça na infância? Pois é, os teóricos, na disciplina acadêmica de Relações Internacionais, não parecem ter feito algo muito diferente. Escolheram algumas pecinhas e então teorizaram. No entanto, cada quebra-cabeça individual não apresenta as suas bordas regulares; há espaços para se encaixar outras peças, que conformam outras teorias.

Comumente, acredita-se que existem, ao menos, cinco valores sociais básicos que os Estados devem defender: segurança, liberdade, ordem, justiça e bem-estar. O enfoque teórico mais tradicional – por vezes, dito positivista – das Relações Internacionais recai no modo pelo qual são incorporados esses valores, ou seja, cada teoria preconiza um deles perante os outros.

A teoria realista das Relações Internacionais concentra-se no valor da segurança, entendendo que na política mundial prepondera uma constante luta pelo poder e, por conseguinte, o cenário internacional é notadamente marcado pelo conflito. O liberalismo, por seu turno, enfoca o valor da liberdade e procura abordar as perspectivas de cooperação nas relações internacionais para se alcançar a paz e o progresso da humanidade. Ordem e justiça são valores assumidos pela Escola Inglesa (ou teóricos da Sociedade Internacional) e reforçam a idéia de que existem interesses compartilhados, regras e instituições que regem a sociedade internacional. E, por fim, o valor do bem-estar é relevado pelos teóricos da Economia Política Internacional (EPI) – marxistas, neomarxistas, etc. –, os quais se atêm à explicação de como o sistema econômico mundial reproduz desigualdades, pobreza e conflitos.

Até aqui, nada de mistérios. Entretanto, como na infância, sempre há aquele amigo joselito, que resolve desmontar o quebra-cabeça montado com grande esforço. Nas Relações Internacionais, esse amigo é representado pelo conjunto de teorias não tradicionais – taxadas, com certo comedimento, como pós-positivistas -, mas não necessariamente novas: teoria crítica, construtivismo, feminismo e os pós’s (pós-modernismo, pós-colonialismo, pós-estruturalismo). Ora, justiça seja feita, ainda bem que tínhamos um joselito, do contrário, não teríamos avançado no campo teórico, no sentido de entender como esses valores são cunhados, que relações são traçados a partir deles e se pensar além do Estado como organização política ou provedor de tais valores. De uma profunda crítica até a desconstrução, eis o caminho dessas teorias.

Seguimos montando este quebra-cabeça teórico, pessoal. Olhemos as peças de cada teoria e as aberturas de suas extremidades que ensejem aproximações e completudes com outras teorias. E, ademais, continuemos a exercitar as nossas dúvidas e inquietações, ampliando os horizontes de nosso pensamento de maneira contínua…


Categorias: Conversando com a Teoria


1 comments
Álvaro Panazzolo Neto
Álvaro Panazzolo Neto

De fato, é da pluralidade de visões que se constrói a compreensão completa de um fenômeno. Lembremos da hermenêutica diatópica, que propõe entender o lado do "outro", e, desse modo, outras visões. O problema (e a virtude) das RIs é seu dinamismo, que impede uma teorização perfeita e acabada, por isso essa constante renovação. Excelente post Giovanni.