Conversando com a Teoria

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Os Grandes Debates Teóricos das Relações Internacionais

É muito comum, nas Relações Internacionais, afirmar que a teoria evoluiu através de grandes debates. Afirmação, por certo, muito válida, mas que de modo algum deve ser tomada como uma camisa-de-força que nos obriga necessariamente a rotular as origens e os desenvolvimentos de uma teoria ou outra. Os debates são, antes de tudo, formalidades didáticas para a organização do pensamento e não dogmas classificatórios. Tracemos agora, brevemente, um quadro evolutivo das teorias dentro da disciplina de Relações Internacionais.

Falamos repetidas vezes do Primeiro Debate, é hora de desmistificá-lo. No imediato posterior à Primeira Guerra Mundial, os chamados “liberais utópicos” (ou “internacionalistas liberais”, dentre outras nomenclaturas) contrapuseram-se aos “realistas”. Os primeiros acreditavam que a humanidade teria aprendido pelos seus próprios erros a significância da barbárie da guerra e, assim, esta seria suprimida como instrumento de política externa. Para eles, seria possível se chegar a um mundo mais pacífico por meio da cooperação, do direito internacional e de organizações internacionais. Entretanto, os segundos, vislumbrando um cenário no qual as tensões da primeira grande guerra não foram completamente sufocadas, sobrelevaram a iminência do conflito e da política de poder. Em suma, o debate envolveu uma perspectiva liberal do mundo como “deveria ser” e uma realista do mundo como ele “é”.

Na década de 1950, o Segundo Debate envolveu as abordagens tradicionais, centradas no entendimento da realidade, e as behavioristas, que objetivava explicá-la. As primeiras pautavam-se pelas normas e valores, pelo julgamento, pelo conhecimento histórico, enquanto as segundas primavam pelas hipóteses, pelo acervo de dados e pelo conhecimento científico. Em síntese, se por um lado, os tradicionalistas defendiam a utilização da Filosofia, do Direito e da História para a compreensão das relações internacionais, os behavioristas optaram por fazê-lo aplicando o cientificismo, isto é, seria possível formular leis científicas para as relações internacionais, tais como se enunciam na Física ou na Matemática. No tradicionalismo, enquadravam-se as teorias realista, liberal e a Escola Inglesa e no behaviorismo encontravam-se as raízes do neoliberalismo e do neo-realismo.

Até o Segundo Debate, pode-se dizer que há uma divisão clara entre dois pensamentos opostos, cada qual abarcando o seu conjunto teórico. A partir do Terceiro, as classificações ficam mais complicadas. Para alguns, ele é o último, para outros, poderíamos chegar até o Quinto Debate. É válido notar que durante a década de 1970 digladiavam-se simultaneamente três grandes vertentes teóricas, quais sejam, (neo)realismo, (neo)liberalismo e (neo)marxismo, discutindo acerca da necessidade de abordagens sistêmicas ou estadocêntricas (centradas no Estado) para as relações internacionais. Ainda que não tenham se constituído como um debate, para alguns, as discussões acentuaram desde as causas do subdesenvolvimento até as perspectivas de cooperação em regimes internacionais.

Por uma questão didática, paremos por aqui. Em outras oportunidades, aprofundaremos esta discussão dos Grandes Debates. Conforme avançarmos, elencaremos os conceitos de cada teoria supracitada e escolheremos alguns eventos internacionais passíveis de compreensão pela teoria em foco. Seguimos conversando!


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3 comments
LOLITA
LOLITA

Bom dia, estou precisando trabalhar no marco teórico do meu projeto de TCC, cujo tema é: A ATUAÇÃO DO BRASIL NA QUESTÃO TIMOR-LESTE: DA DÉCADA DE 80 a COMUNIDADE DOS PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA aonde além do direito internacional e a constituição brasileira dando ênfase no princípio de autodeterminação e os direitos humanos gostaria de introduzir uma das teorias das Relações internacionais... só que tenho uma certa dificuldade em abordá-las... tem como vc me dar uma idéia? De acordo com minha análise percebi que a que mais se encaixa seria a teoria libera. O que vc acha? valeu!

Giovanni Okado
Giovanni Okado

Olha, Mário. Eu sofri e ainda sofro até hoje para fazer essas sínteses e categorizações, são sempre tão indefinidas. hehehe.Abraços

Mário Machado
Mário Machado

Eu queria conseguir sintetizar tão bem os debates não teria sofrido tanto com os fichamentos obrigatórios. Abs,