Conversando com a Teoria

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Realismo: da morte à imortalidade

“Leve-me da morte à imortalidade.” Estas são as palavras de um dos upanishads (transliteração) da Índia. Mas de que forma podemos relacioná-las com as teorias de Relações Internacionais e, mais especificamente, com a teoria realista?

Caros leitores, primeiramente, é importante salientar que o realismo se impõe como a mais influente tradição teórica nas Relações Internacionais, seja entre analista, seja entre tomadores de decisão. Tal fato decorre da diversidade e da riqueza das premissas históricas e de princípios básicos, quais sejam, a sobrevivência, o poder, a centralidade do Estado e a anarquia internacional. Sob o viés histórico, a política internacional é marcada pela recorrência e repetição: tudo o que acontece no presente e acontecerá no futuro tem o seu “gêmeo univitelino” no passado.

Ora pois, apresentemos a tradição realista. Se internamente é possível a existência de uma organização política ordenada e consumada no Estado, no plano externo, inexiste uma ordem internacional similar ao ordenamento estatal interno e a regra é a anarquia (entendida enquanto a ausência de um governo central e não como baderna). Nessa ordem anárquica, os Estados se sobressaem como os únicos atores: somente eles são capazes de atuarem na política mundial (fazer acordos, declarar a guerra, etc.). A sociedade civil, as organizações internacionais, as organizações não-governamentais e demais atores são desconsiderados pelos realistas.

A finalidade básica dos Estados é aumentar a própria segurança para assegurar a sobrevivência. Logo, irão buscar a expansão de seu próprio poder para lograrem êxito na consecução de seu fim – entendamos o poder no sentido do sociólogo Aron: a capacidade de fazer com que outrem faça o que nós queremos. A permanente busca pelo poder faz com que a sombra do conflito avance no relacionamento interestatal. Todo esse pensamento é amparado pela História, a nossa grande mentora. Por exemplo, desde o fim da era glacial a guerra tem sido um elemento indissociável da evolução humana. Conceito ilustrativo de tal situação é o “dilema da segurança”, como vimos no post da semana passada.

Sobrevivência: eis a lógica que então permeia todo o pensamento realista. Um Estado conduz suas ações no sistema anárquico internacional para sobreviver. Outros farão o mesmo e assim surge a perspectiva do conflito. Portanto, concluímos que partindo da iminência da morte, os Estados farão o possível para serem “imortais”. Reescrevendo a frase do upanishad indiano: “Levem-nos da morte à imortalidade.”

Numa outra oportunidade, tratemos dos principais autores realistas e de um caso prático para empregar esta teoria. Até lá!


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2 comments
Giovanni Okado
Giovanni Okado

Ivan, muito obrigado pelo comentário.Terei estas palavras sempre em consideração para procurar melhorar sempre esta coluna e ajudar, na medida do possível, no entendimento da disciplina acadêmica, da qual somos todos discípulos.Abraços

Ivan
Ivan

Giovanni, parabéns!Eu era um pouco cético quanto a essa introdução acadêmica no blog mas devo dizer que até então está excelente!Não é a toa que você está no mestrado da UnB!