Conversando com a Teoria

Por

[Pessoal, segue abaixo mais um post do colaborador Giovanni Okado para a seção Conversando com a Teoria. Nesta oportunidade, são desenvolvidas idéias de pensadores realistas das Relações Internacionais! Aproveitem a leitura!]


Realismo: pensamento e pensadores

De modo geral, a tradição realista se subdivide em duas vertentes: o realismo clássico e o realismo moderno (ou neoclássico) – concentremo-nos apenas nestas. No que concerne à primeira, os principais autores são Tucídides, Maquiavel e Hobbes. Já no tocante à segunda, Carr e Morgenthau são as referências indispensáveis e mais diretamente ligadas às Relações Internacionais, propriamente ditas.

Primeiramente, tratemos dos realistas clássicos. Tucídides (471-400 a.C.), o antigo historiador grego que analisou a Guerra do Peloponeso (431–404 a.C.) – batalha travada entre Atenas e Esparta (foto) –, depreendeu que, “em um mundo onde os poderosos fazem o que têm o poder de fazer e os fracos aceitam o que têm que aceitar”, perdura o medo de não sobreviver e incita a guerra. Assim sendo, o historiador prenunciou o conceito de balança de poder, dado que os fracos tentarão se aliar aos poderosos, os quais ostentam rivalidades entre si, no intuito de manter uma situação relativamente pacífica em que todos possam sobreviver. Contudo, a sombra do conflito não se dissipa nesta interação.

Por outro lado, a herança de Maquiavel (1469-1527) ao realismo encontra-se na ênfase depositada na sobrevivência do Estado como ator, retratando a conturbada época vivida pela Itália na qual o teórico político renascentista escreveu “O Princípe”. Para o teórico, o príncipe (governante) deveria sempre estar preparado para a guerra de modo a garantir a segurança estatal. Por fim, o conceito hobbesiano de “estado de natureza” assemelha-se ao estado de anarquia no sistema internacional. Hobbes (1588-1679) argumentou que a natureza humana é essencialmente má e que a inexistência de um soberano (Leviatã) implicaria na guerra de “todos contra todos”. Internamente, o filósofo inglês defende que é possível a realização de um contrato que encerre o relacionamento conflituoso. Externamente, os Estados guerreiam entre si. Certamente, Hobbes prescreveu a idéia do dilema da segurança.

Passemos agora para os realistas modernos ou neoclássicos. Edward H. Carr (1892-1982) é tido como um dos precursores desta vertente e sua obra “Vinte Anos de Crise – 1919-1939” delineia exatamente o Primeiro Debate nas Relações Internacionais. Ele é responsável por apresentar este debate, travado entre realistas e idealistas. Em sua obra, Carr refuta a ingenuidade do idealismo, afirmando que interpretaram erroneamente os fatos da história e que não entenderam a natureza das relações internacionais. Ademais, o autor recorda o poder como o motivador das ações dos Estados, embora tenhamos que admitir: Carr buscou muito mais uma síntese realismo-idealismo do que uma posição puramente realista.

Já Hans Morgenthau (1904-1980) é sem dúvida a maior expressão do realismo e autor dos seis princípios que norteiam a essa tradição teórica. Resumidamente, são estes os princípios: 1) a política obedece a leis objetivas decorrentes da natureza humana; 2) o interesse estatal é sempre definido em termos de poder; 3) o interesse em termos de poder é um conceito universal; 4) os princípios morais universais são aplicados em consonância com a época e o local; 5) os princípios morais de uma nação em particular não podem governar os demais; e 6) a política é uma esfera autônoma, isto é, não se subordina a nenhuma outra (econômica, cultural, etc.).

Eis alguns pensadores e pensamentos. Na próxima semana, traremos um caso concreto no qual se pode aplicar a teoria realista das Relações Internacionais. Aguardem!


Categorias: Conversando com a Teoria


0 comments