Conversando com a Teoria

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Nas últimas semanas, lidamos com o Realismo, sua teoria e seus autores. Agora, vamos abordar um caso prático. Apesar de ser a vertente mais consagrada das Relações Internacionais, e que literalmente moldou a disputa entre EUA e URSS na Guerra Fria, o Realismo teórico perdeu um pouco de força a partir da década de 1990. Todavia, casos práticos com esse aspecto mais clássico ainda existem, como as relações entre Índia e Paquistão, focadas na insegurança e temor da ação militar.

Contudo, existe um caso interessante – e bem atual – que mostra uma riqueza maior associada ao Realismo, indo além do aspecto do conflito, que é a situação das bases militares no Quirguistão. O país asiático, como sabem, está há algum tempo imerso em conflitos internos e problemas políticos. A isso se soma uma velada disputa internacional, encabeçada justamente por EUA e Rússia. A questão é que ambos os países possuem bases militares na ex-república soviética e “oficiosamente” não veriam com bons olhos a presença um do outro, especialmente a Rússia. De fato, um dos fatores de crise interna no país centro-asiático foi a repercussão da renovação do aluguel da base norte-americana, após o ex-presidente ter recebido uma mesada de 2 bilhões de dólares Moscou (para quem as bases devem ser temporárias e desarticuladas após cumprirem suas missões relevantes) como “incentivo” ao fechamento das mesmas.

Mas onde o Realismo entra nisso? Lembrem dos interesses em termos de poder, e a busca pela sobrevivência do Estado. A base norte-americana é vital para a missão do Afeganistão (servindo como ponte de abastecimento e logísitca), na cruzada contra o terror. Ora, esta é uma questão vital para a sobrevivência e a garantia da segurança dos EUA, ao menos na última década. Por outro lado, a existência de uma base russa é apenas um demonstrativo das constantes “investidas” de Moscou na Ásia Central, onde anda perdendo influência para a Europa Ocidental, principalmente com a abertura para o ingresso na União Europeia. De fato, mesmo os EUA acabam tendo um fator de influência crescente – boa parte da melhoria permanente de infraestrutura das cercanias depende do dinheiro norte-americano para a base. Por aquelas bandas, poder militar ainda significa muito, principalmente após quase 20 anos de abandono e empobrecimento de diversos países, e a Rússia ainda tem muitos interesses políticos e econômicos, influindo de maneira sutil (ou não…) nos desenvolvimentos da região, incluindo a atuação no Quirguistão, dividido entre grupos pró-Moscou e pró-Ocidente.

O fato é que, apesar do fim da Guerra Fira, ainda persistem muitas desconfianças entre EUA e Rússia. Basta ver a celeuma causada pelo tal escudo antimísseis da OTAN. A presença dos EUA na Ásia Central, associada à guerra no Afeganistão, torna-se uma presença indesejada e até mesmo improdutiva para a Rússia, que em seu projeto de reestruturar uma esfera de influência, ainda tem que aturar a presença crescente da China nos negócios da região. Os dois países podem até não estar em conflito armado (como, aliás, nunca estiveram, diretamente), e são tecnicamente aliados hoje, mas lembrem-se do famoso ditado realista: “o amigo de hoje pode ser o inimigo de amanhã” – e vice-versa!

Portanto, os EUA precisam da base para combater o terror, e a Rússia precisa de sua base como elemento de influência regional. A coexistência de ambas torna-se problemática em uma região conturbada, na qual entram os elementos da imprecisão e da dificuldade em prever o que o outro está pensando (o cerne do dilema de segurança), e o atrito acaba sendo uma conseqüência inevitável. Esse caso é apenas uma breve e superficial mostra da riqueza teórica do Realismo, corrente que certamente ainda vai continuar a se adaptar aos tempos e render muitos estudos importantes para a área.


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