Conversando com a Teoria

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[Antes de iniciar o post de hoje, gostaria de registrar os cumprimentos de toda a Equipe da Página Internacional ao colaborador Raphael Camargo Lima, que hoje completa mais um ano de vida. Desejamos muita luz e sucesso no seu caminho! Um abraço especial de todos que aqui escrevem a você, Raphael.]

Liberalismo: entre a razão e a paixão

O artigo I da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) prescreve: “Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade.” e, no entanto, esses dois valores elementares – liberdade e igualdade – não resplandecem em sua plenitude nos indivíduos de todas as nações do mundo. Tais valores e a preocupação com o indivíduo representam o cerne da tradição liberal e redundam de um longo processo (ainda incompleto) construído no decurso da história.

A queda da Bastilha e a formação da sociedade industrial moderna educaram o filho dileto do Iluminismo, o liberalismo, e seus ensinamentos extrapolaram as fronteiras do tempo. Atualmente, a corrente liberal, mesmo que enfoque primordialmente a dimensão nacional, apresenta-se como um dos paradigmas dominantes nas teorias das Relações Internacionais.

Diferente da tradição realista, não se pode encontrar um pensamento coeso na tradição liberal e as diferenças e controvérsias culminam em sub-tradições dentro de uma ampla perspectiva filosófica – liberalismo sociológico, liberalismo institucionalista, etc.. Apesar da falta de coesão, há uma essência da qual compartilham as diferentes tradições liberais: o fundamento da liberdade individual, que traz consigo a capacidade de decidir o que é justo e o que é bom. Logo, amparados pela razão, nossas escolhas nos permitiriam produzir resultados sociais positivos e sociedades auto-reguladas, bem como poderíamos assegurar condições permanentes para o progresso contínuo e inevitável dessas sociedades.

Rompendo agora a dimensão interna e passando para o plano internacional, a fé depositada na razão assume novas formas. As idéias liberais de livre-comércio, democracia, instituições, interdependência, dentre outras, superariam a inevitabilidade da guerra e a condição anárquica do sistema internacional. Em suma, a guerra cessa a atividade comercial; democracias não entram em guerra; instituições reduzem os conflitos e mudam a natureza da política mundial; uma situação de dependência mútua abranda disputas. A natureza humana é essencialmente boa e os seres humanos, dotados de razão, podem muito bem construir um novo mundo, não como ele é, mas como ele deveria ser. Não seria uma visão apaixonada?

Findada a Primeira Guerra Mundial, os primeiros liberais a formularem conceitos às Relações Internacionais – conhecidos como idealistas na época – acreditaram que este seria o conflito que poria fim a todos os demais porque os humanos teriam aprendido que tamanha bestialidade não deveria se repetir. Sim, este era um pensamento bastante razoável, mas não teria também o elemento da paixão? De uma súbita veleidade? Não ocorreria o mesmo no artigo I da Declaração Universal dos Direitos Humanos?

Certamente, esta deve ser também a tradição mais próxima dos humanos, pois a intermediação entre a razão e paixão remonta o próprio e eterno dilema humano entre o agir racionalmente e o agir emocionalmente. No meio, perdura o mistério de toda ação. Cabe-nos perguntar o quanto devemos ter aprendido com os liberais e quanto eles devem ter aprendido conosco.


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2 comments
Giovanni Okado
Giovanni Okado

Caro, Rodrigo. Muito obrigado pelas palavras! Todos nós, do blog, agradecemos imensamente pela sua visita e torcemos para que continue conosco.Quanto aos votos, digo que são recíprocos. Deus possa também iluminá-lo e toda a sua família, banhando-os com sucesso e felicidade.Um abraço!

Rodrigo Rocha
Rodrigo Rocha

Giovanni passei para conhecer seu blog ele é not°10, show, fantástico muito maneiro com excelente conteúdo você fez um ótimo trabalho desejo muito sucesso em sua caminhada e objetivo no seu Hiper blog e que DEUS ilumine seus caminhos e da sua famíliaUm grande abraço e tudo de bom