Conversando com a Teoria

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Liberalismo: não à guerra, sim à paz

Quem não se lembra da Primeira Guerra Mundial e seus desdobramentos? O século XIX político – e não o cronológico – chegava ao seu fim. As expectativas de um novo amanhã, sem rivalidades e pacífico, contaminavam os ânimos do mundo. As inspirações seculares dos autores que vimos na semana passada voltaram à tona. Dessa maneira, forjado no contexto e nas idéias, o liberalismo (ou idealismo, ou ainda liberal internacionalismo) constituiu-se a primeira teoria formal para as Relações Internacionais.

“O mundo deve se tornar seguro para a democracia. Não temos objetivos egoístas para servir. Não desejamos conquistar nem dominar.” Com estas palavras, o presidente norte-americano Woodrow Wilson definiu a postura que os Estados Unidos deveriam assumir ao entrarem na Primeira Guerra Mundial. Curiosamente, a ênfase de Wilson na propagação dos valores liberais e democráticos pelo mundo com a finalidade de evitar uma nova guerra. Em 1918, após o término da guerra, o presidente enviou ao Congresso os famosos Quatorze Pontos, os quais, de certo modo, preconizaram três princípios: 1) a promoção da democracia; 2) a autodeterminação dos povos; e 3) a criação de uma organização internacional (Sociedade ou Liga das Nações) para regular institucionalmente as relações interestatais. Eis a fórmula para alcançar a paz.

Pensador também indispensável dessa corrente teórica é o jornalista Norman Angell, que escreveu A grande ilusão e ganhou o Nobel da Paz em 1933. Seu argumento central, muitas vezes tido como ingênuo, é que é uma ilusão acreditar que a guerra serve a propósitos lucrativos. Isto não significa dizer que a ocorrência dela seja impossível, como faz questão de ressaltar o autor, e sim que ela é fútil e ineficaz, mesmo quando vitoriosa. Exemplo ilustrativo, em seu livro, é a análise da Guerra Franco-Prussiana (1871), marcada pela disputa da região de Alsácia-Lorena. Um ano após a vitória alemã, o povo francês gozava de uma melhor situação de bem-estar. É válido notar que as próprias forças navais norte-americanas, numa de suas publicações, reconhecia a validade do argumento de Angell.

Outro autor que merece destaque no período abarcado é John Maynard Keynes. Ele próprio, cuja contribuição maior que lhe é creditada é a teoria do emprego, dos juros e da moeda. Porém, o seu livro As conseqüências econômicas da paz é um relato de distinta elegância de quem participou da Conferência de Paz de 1919, que instituiria o Tratado de Versalhes. Durante as negociações, dois erros fundamentais ocorreram: a exigência do impossível, quanto à reparação e os débitos de guerra, e a persecução de uma segurança ilusória, sem levar em conta a unidade econômica européia. Afinal, como exigir da Alemanha o que ela não tinha? Recordem-se, o país recentemente acabou de pagar as suas dívidas do Tratado de Versalhes. Inevitavelmente, a Europa não poderia gozar de paz enquanto não acertasse a economia e não desfrutaria de bem-estar.

Apesar dos esforços desses teóricos, na década de 1930, o liberalismo foi vencido pelo realismo, no Primeiro Debate, e passou a ocupar um papel bastante periférico nas teorias de Relações Internacionais. Entretanto, nada impediu que as idéias liberais ressurgissem com mais força a partir da década de 1950. Deixemos isto para outra ocasião!


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