Conversando com a Teoria

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Liberalismo: entre a retórica e a aurora

Enfim, vamos a nossa análise de caso pelo liberalismo. A proposta que aqui se segue é identificar qual a praticidade dos pressupostos da teoria liberal das Relações Internacionais. Isto não é tarefa muito fácil e, em grande medida, confusa. Seria mais fácil se falássemos da teoria neoliberal, mas tentemos nos aventurar por esses caminhos.

De modo geral, o liberalismo aparece muito em âmbito discursivo, mas pouco se concretiza na prática. Como toda teoria, serve para nortear um determinado tipo de conduta e instrumentalizar a ação. O problema é que muitas vezes não passa de um exercício de retórica. Exemplo claro disso é a política externa norte-americana. No discurso de posse do presidente Obama, quando deveríamos escolher a esperança ante o medo, um dos belos trechos diz o seguinte: “o mundo ficará menor, nossa humanidade comum deve revelar-se; e que a América vai desempenhar o seu papel em uma nova era de paz.” Foi o que assistimos?

Em outro discurso, proferido no Cairo, em 2009, Obama sinalizou uma aproximação com o mundo islâmico. Para muitos analistas, foi encarado como um marco significativo da política externa dos EUA. Uma questão curiosa foi o argumento do presidente norte-americano de que qualquer um tem o direito de investir em um programa nuclear pacífico, inclusive o Irã. E, no sopro dos ventos liberais, Obama chegou a dizer: “Para que venha a paz, é hora de todos – os diretamente envolvidos e nós também – agirem de acordo com as responsabilidades de cada um.” Ressalta-se que a paz apareceu vinculada aos direitos humanos, democracia e comércio, no espírito liberal.

Em The tragedy of great power politics, Mearsheimer – um realista por definição – endereça a crítica ao liberalismo no sentido exposto acima: no discurso, os Estados Unidos sempre se assumem liberais, mas agem pautados nos princípios do realismo. Ora, se tudo fica no âmbito discursivo, o liberalismo é inútil? Longe disso. Carr, previamente, havia destacado a importância de unir o idealismo e o realismo. Sem a perspectiva de um mundo “como deveria ser”, permaneceríamos estáticos no passado e no presente, sem mudança e tampouco esperança.

Nas relações internacionais, como em outros campos da vida, sempre precisamos de um norte. O liberalismo pode fornecer um importante norte para a conduta das nações, mas é preciso que as ações se voltem para ele. Não basta apenas o contínuo exercício de imaginar novas auroras, se não puder vivê-las e apreciá-las, com vigor e esplendor.

[Seguem duas leituras da Foreign Policy que valem a pena sobre o trabalho de Samuel Huntingon: uma de Fukuyama e outra de Zakaria. Por sinal, dois críticos de Huntingon.]


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