Conversando com a Teoria

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Adeus Marx? Adeus Lenin?

Na época da eclosão da atual crise financeira, o historiador britânico Eric Hobsbawn concedeu uma entrevista ao jornalista Marcello Musto, na qual se abordou a atualidade do pensamento de Marx e o interesse renovado por este autor. Pela entrevista, percebe-se que o marxismo – tão preconizado na filosofia, sociologia e economia – também pode contribuir para o entendimento das relações internacionais.

Já afirmava categoricamente Marx, em pleno século XIX, que a história de todas as sociedades é a história da luta de classes. Em todos os tempos, sempre houve uma classe opressora e outra oprimida, freqüentemente explorada. No plano internacional, tal situação se repetia. Diferentemente dos pensadores liberais que acreditavam que o livre comércio era benéfico a todas as nações, Marx defendia que, na verdade, as relações econômicas reproduziam a exploração e acentuava as desigualdades. Ainda assim, não é propriamente o filósofo e economista alemão que produziu uma teoria marxista para as relações internacionais, mas suas idéias contribuíram decisivamente para uma leitura crítica das mesmas.

Ora, justamente as premissas de Marx acima mencionadas inspiraram a primeira teoria marxista propriamente dita para as relações internacionais, qual seja, a teoria do imperialismo, elaborada por Lênin. Aprimorando o pensamento anterior, este autor substituiu o termo “classes” por “Estados”, os quais reproduziam também relações de domínio e exclusão em suas interações. Internamente, há a exploração da classe dominante, externamente, pode haver a associação entre classes dominantes de diferentes países ricos com a finalidade de explorar os países pobres, bem como pode haver desacordos quanto à exploração.

Para Lênin, o final do século XIX era marcado por um estágio superior do capitalismo: o imperialismo – situação em que havia uma intensa disputa entre os países ricos (opressores) por matérias-primas e mercados consumidores nos países pobres (oprimidos). Esta, por sua vez, contribuía para a formação de monopólios e conflitos. Por este viés, a guerra é causada a partir das desavenças econômicas e não pela busca incessante da sobrevivência, como crêem os realistas.

Em geral, a teoria leninista, partindo do senso crítico de Marx, é a mais aceita como a teoria marxista das relações internacionais, embora haja bastante divergência sobre a existência ou não desta teoria. Apesar dos desacordos, ressalta-se que as premissas do marxismo são indispensáveis para uma boa compreensão do cenário mundial, inclusive, da atual conjuntura em que vivemos. Deixemos uma análise mais profunda para outra ocasião.

Apenas uma questão final: em 2003, Wolfgang Becker dirigiu o filme “Adeus Lênin”, no qual é narrada a trajetória de uma professora entusiasta do socialismo que entrou em coma antes da queda do Muro de Berlim e só recuperou a consciência após o evento. Ela acordou em mundo completamente diferente, mas seu filho esforçou-se para lhe ofertar um mundo antigo. Teria o socialismo soviético morrido de fato para ela? Será que realmente dissemos adeus para Marx e Lênin? Ao que parece, a resposta é negativa.


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