Conversando com a Teoria

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Sobre lucros e soluções

[Um detalhe, pessoal: este artigo foi escrito em 2008, quando a atual crise financeira explodiu. Hoje, poderíamos ainda inserir a quebradeira na Grécia, na Irlanda e, logo mais, nos países ibéricos. A lógica do que anda ocorrendo talvez não seja tão diferente de dois anos passados, afinal, seguimos nos desdobramentos dela.]

Primeiramente, façamos algumas considerações: não nos caberá apontar quais estão sendo os resultados, as atuais discussões e outras questões que todos podem acompanhar no noticiário diariamente. Nosso objetivo será avaliar as medidas que privilegiam a manutenção do sistema capitalista existente, alvo de críticas pelo viés marxista.

Fazendo alusão à entrevista recente do economista Renato Gonçalves para a revista Ciência Hoje, a locomotiva do atual sistema capitalista descarrilou e, por conseguinte, seus vagões foram saindo do trilho. Sim, estamos falando dos Estados Unidos e dos demais países. Todos entraram na crise norte-americana. As pessoas foram seduzidas a comprar, os bancos não tinham dinheiro para emprestar. E lucram aqueles que não têm dinheiro. É engraçado, não?

Entre os extremos da sedução e do consumo, a especulação. E a ganância, por que não? Mas, sinceramente, as principais instituições financeiras souberam dissimular muito bem. O comportamento fraudulento e até mesmo criminoso delas alienou os consumidores a ter o que nunca tiveram pagando por aquilo que perderam. É, realmente, o sistema opera de tal forma que somente produz exclusão e privilegia àqueles que detêm o capital.

Ora, se não fosse assim, será que os Estados Unidos teriam uma dívida pública de 10,5 trilhões de dólares? Para efeito de comparação, o PIB (Produto Interno Bruto) mundial é da ordem de 55 trilhões de dólares, ou seja, a dívida norte-americana corresponde a um quinto deste percentual.
E as soluções adotadas até então? Adivinhem? Vamos salvar os criminosos, opa, as empresas que criaram a crise. Empresas cada vez mais soltas numa economia completamente desregulada. E quem as salva? Os Estados. E o que são os Estados? O instrumento de dominação das classes dominantes. Bem-vindos ao marxismo.

Vocês sabem qual a primeira reação dos especuladores norte-americanos sobre o anúncio da liberação de 700 bilhões de dólares do governo para a economia? The happy days are back. O que é que podemos dizer? Só nos resta concordar e dizer que realmente estão de volta para eles.

Até mesmo nas situações de maior fragilidade econômica, a doutrina salvacionista é o lucro. Ou melhor, a concentração dele. Quando a economia cresce, ele é acumulado; quando declina, ele é expropriado: independentemente do que ocorrer, sempre se socializará os prejuízos, não os ganhos. Querem um exemplo, na Inglaterra, primeiro se salvou os carros, para estes salvarem as pessoas. Não há espaço para os pequenos, para os que fazem a economia se mover, apenas para aqueles que a controlam.

Se os liberais defendem o estímulo ao consumo e a recuperação do atual sistema econômico e financeiro, os marxistas são mais apocalípticos. O sistema chegou ao seu colapso? Inevitável mundo novo? Não. Para recordarmos, ainda não dissemos adeus para Marx ou Lênin. Não enquanto não nos ajudarem na procura de respostas. E de críticas.


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