Conversando com a Teoria

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A ascensão do novo

Pois é, pessoal, hora de adicionar um prefixo aos “ismo’s”. E o prefixo escolhido é o “neo” – não é o protagonista do filme Matrix. Assim, teremos: neorrealismo, neoliberalismo e neomarxismo. A mera adição do “neo” muda também a substância do pensamento e, consequentemente, o corpo teórico. Há diferenças entre o antigo e o novo e, em certa medida, as três teorias também encontram os seus pontos de cruzamento.

Particularmente, as décadas de 1960 e 1970 serviram de cenário para a emersão desses três “neo’s”. Desde o término da Segunda Guerra Mundial, o realismo predominava como a vertente explicativa das relações internacionais. A trindade do poder, segurança e sobrevivência guiavam os Estados em seus relacionamentos, num ambiente que implicaria, à Carl Schmidtt, definir inimigos e amigos. Com os amigos se coopera, aos inimigos se combate. Veio a Guerra Fria. No transcorrer do tempo, as definições e as ações deixaram de ser tão claras, bem como o dogma da trindade passou a ser questionado.

Para além dos Estados, não haveria empresas? Em um estudo, Joseph Nye concluiu que algumas empresas multinacionais detinham um patrimônio superior ao PIB de muitos países, separados ou juntos. Há mais questões importantes: quais os interesses dessas empresas? Segurança não se relacionaria também com o bem-estar econômico? Sobreviver é o suficiente? O poder é medido apenas nos termos absolutos das capacidades militares, econômicas, naturais, sociais, culturais, etc.? O que permite dizer que alguém é mais ‘poderoso’ que outro? E, quando é mais poderoso, não haveria uma estrutura imperceptível de domínio que condiciona outras lógicas?

Tais questões ampliam o horizonte de pesquisa. Não se trata apenas de falar sobre poder, utopia e exclusão, mas de buscar as suas causas profundas a nível sistêmico, considerando o mundo como o ponto de partida para o que acontece em cada país. Outrossim, quando se depara com novos problemas, é natural que se procure novas maneiras de se lhe dar com eles. O realismo tornou-se insuficiente, o liberalismo estava em outra galáxia e o marxismo apegado a luta de classes. Como explicar a emersão de novos atores, das questões de outra ordem – como o meio ambiente –, do Norte contra o Sul, quando a guerra era entre Leste e Oeste?

Fato é que o mundo estava em transformação. É preciso um olhar mais acurado sobre o mesmo para entendermos de que maneira o neorrealismo, o neoliberalismo e o neomarxismo se dedicaram a analisá-lo. Esta é a aventura para a qual todos vocês, leitores, estão convidados nas próximas semanas. Vamos voltar ao mundo de mais de quatro décadas e teorizar junto com ele. Paradoxalmente, é hora de dizer: bem-vindos ao novo!


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1 comments
Luís Felipe Kitamura
Luís Felipe Kitamura

As teorias da RI, especialmente essas "neos", são um pouco complicadas. Com o surgimento de novos fatos e contextos é mais que natural que as teorias se atualizem ou se tornem insuficientes para explicar os eventos. Obrigado Giovanni pela manutenção do Ccat, creio que esses debates são muito importantes para todos os interessados em discutir os eventos internacionais.Um abraço,