Conversando com a Teoria

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Décadas em mutação, teorias em gestação – I

Neste post da CCaT e nos próximos, vamos nos aventurar pelas décadas de 1960 e 1970, de maneira a compreender o que elas têm de tão especial para o surgimento de novas teorias nas Relações Internacionais. Tentaremos, em certa medida, cobrir parte dos principais acontecimentos que conduziram a novas agendas e programas de pesquisa. É certo que nem tudo é uma novidade, porém permaneceu enterrado no simplismo do choque entre Leste e Oeste.

Um olhar em retrospectiva nos recorda que, com o término da Segunda Grande Guerra, a descolonização se espalhou pela África e Sudeste da Ásia. Aos poucos, novos países foram se incorporando ao mundo. Esses países somaram-se aos países “esquecidos” (a América Latina, no geral) e não queriam necessariamente o que queriam os países já acomodados na ordem internacional. O Tejo, o mais belo rio de Pessoa, não cruzava todos os territórios. A solução era transformar os rios que cortavam as suas respectivas aldeias no próprio Tejo (ver poema).

Vieram Conferência de Bandung, em 1955, sobre o não-alinhamento a nenhum pólo de poder, a criação da UNCTAD no âmbito da ONU, em 1964, e a onda terceiromundista na década de 1970, anunciando uma Nova Ordem Econômica Internacional (NOEI). O grande desafio passou a ser como acomodar os países nascentes e os esquecidos e como levar em consideração as suas demandas.

Entre as suas demandas específicas, destaca-se o pleito pela inversão de prioridades na ordem internacional: conferir primazia à economia ao invés da política. Em outros termos, isso significou priorizar o desenvolvimento econômico e comercial em detrimento do poder militar (ou segurança) e dos espaços de influência. Tratava-se, pois, de renegociar as regras que regiam o mundo e privilegiavam exclusivamente os países mais desenvolvidos, como se o desenvolvimento apenas lhes pertencesse, à custa dos demais. Nem o Sistema de Bretton Woods (com o FMI, o Banco Mundial e o padrão dólar) nem o GATT estavam preparados para lidar com o terceiromundismo.

Por outro lado, a necessidade de se desenvolver gerou um impasse em outra questão: a ambiental. Em que medida é possível compatibilizar a marcha desenvolvimentista com a preservação do meio ambiente? Os países ricos começaram a se preocupar com isso, enquanto que os países pobres permaneceram reticentes, pois preservar era sinônimo de se desenvolver menos, além de perceberem a preocupação de maneira negativa: a perda de um direito inerente. Os ricos se desenvolveram e os pobres, não, e tampouco o farão.

Por enquanto, cobrimos uma parte significativa do que desencadeou um grande debate e repercussões nas relações internacionais nas décadas de 1960 e 1970: a ascensão de novos países na ordem internacional e as suas demandas específicas. Embora tenha sido um movimento consentâneo, o grau de coesão variou; por exemplo, a América Latina chegou a desenvolver um pensamento ideológico próprio. Falemos de outros acontecimentos na próxima semana. Até lá!


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