Conversando com a Teoria

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Décadas em mutação, teorias em gestação – III

Antes de fazermos um balanço conclusivo das décadas de 1960 e 1970, de maneira a compreender por que neste período emergiram novas teorias das Relações Internacionais, convém comentar pelo menos mais dois acontecimentos importantes. O primeiro deles diz respeito ao “aquecimento” da Guerra Fria, com as guerras do Vietnã e Yom Kipur, numa demonstração do equilíbrio instável no período de arrefecimento do conflito entre as superpotências. A despeito das expectativas otimistas, a guerra deve ser levada em consideração no cálculo racional dos países em suas interações.

O segundo fato importante é a reanimação da Europa, praticamente reconstruída ao final dos anos 1950, com a ajuda econômica norte-americana. Recuperada, o continente encaminhou-se para a reinserção no terreno das relações internacionais, buscando também um lugar ao sol. Uma das estratégias de reinserção foi a construção de uma Europa integrada, marcada pela superação da rivalidade franco-germânica, com a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (1951), que depois veio a se tornar a Comunidade Economica Europeia, com os tratados de Roma (1957). Nascia, assim, a União Europeia, o principal projeto de integração supranacional.

Pelo que temos nos últimos posts desta coluna, as relações internacionais mudaram quantitativa e qualitativamente nas décadas de 1960 e 1970, embora o pano de fundo tenha sido o mesmo: a Guerra Fria. Novos atores contracenaram de maneira diferente, fora dos roteiros preconcebidos no jogo de poder e ajuste de posições. Novos temas e novas preocupações, que passaram despercebidos pela cega ameaça da mútua destruição entre as duas superpotências, foram incorporados à agenda global: ambiente, bem-estar econômico, melhorias sociais, movimentos contra-cultura, independência, etc.

Da mesma forma, não se deve pressupor que as velhas preocupações das teorias de Relações Internacionais desapareceram, como assinalam as guerras. A política de poder foi explorada pelo neorrealismo e também com os neoliberais, uma vez que estes consideram que a perspectiva de conflito é o que conduz à cooperação. Os neomarxistas se dedicaram a explicar o subdesenvolvimento e as possibilidades de romper com esse ciclo vicioso. Assim, outros fenômenos, junto com os antigos, eram submetidos à análise sob novas lentes. Ressalta-se também que nem por isso realismo, liberalismo e marxismo, sem os prefixos, foram abandonados.

Diante das mutações os anos 1960 e 1970, novas teorias foram gestadas. A partir da próxima semana, procuraremos apresentá-las!


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