Conversando com a Teoria

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Neoliberalismo: interdependência, instituições e cooperação

O mundo como deveria ser pertence à utopia liberal. Um mundo como pode ser se encaixa no repertório neoliberal. É possível superar a condição anárquica do sistema internacional, que, na ausência de um soberano global a qual todos os países estariam subordinados, mantém a guerra num horizonte sempre próximo. Verdade também seja dita, nem sempre as relações conflituosas são mitigadas e os neoliberais reconhecem isso. Mas a grande questão que se interpõe é: como então mitigar a anarquia e o conflito?

Eis que entram em cena os conceitos de “interdependência” e “instituições”. Keohane e Nye, os teóricos mais expoentes da abordagem neoliberal, constataram na década de 1970 que os processos transnacionais estavam mudando a natureza das relações internacionais, notadamente, as economias nacionais cada vez mais interligadas e a maior presença de atores não-estatais (empresas multinacionais, ONGs, etc.). Um mundo interdependente que nos faz lembrar a personagem Waris Dirie, do filme Flor do deserto, “o que acontece com qualquer um de nós, afeta a todos nós.” As crises do petróleo são o principal exemplo, a atitude dos países da OPEP repercutiu de imediato em todos os quadrantes do globo.

Uma definição mais precisa de interdependência (e que será trabalhada melhor na próxima semana), na concepção dos autores supramencionados, é a situação na qual ocorrem efeitos recíprocos entre os países ou entre atores de diferentes países. Em outras palavras, um estado de mútua dependência. Num mundo interdependente, o custo da guerra se eleva, ainda que envolva poucos países, já que os efeitos dela podem ser prejudiciais a terceiros. E também aumenta a perspectiva da cooperação. (Uma ressalva: isso não quer dizer que o conflito seja extinto de uma vez por todas, pois, como veremos, a interdependência pode também contribuir para que ele ocorra.)

Outro ponto que aumenta e aprofunda a cooperação é a criação de instituições, o segundo conceito. Por instituições, não se entende apenas “organizações internacionais”, mas um conjunto de regras (formais ou informais) que norteiam o comportamento, constrangem a ação e geram expectativas. Pode ser uma ONU, um sistema como Bretton Woods ou convenções (por exemplo, Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (1992) – UNFCCC, na sigla em inglês). A institucionalização engendra confiança, permite a troca de informações e confere maior previsibilidade em relação ao comportamento futuro dos atores envolvidos na instituição. Por isso, a cooperação.

Para não estender muito este artigo, apenas um último registro: os neoliberais, ao contrário do pensamento realista vigente, não concebem uma ordem hierárquica de assuntos, sendo que a segurança vem à segurança. Para eles, segurança é tão importante quanto bem-estar econômico, quebrando a distinção que usualmente se faz entre high politics (segurança, poder militar, etc.) e low politics (economia, cultura, meio ambiente, etc.). Isso foi também favorecido pela emersão de atores não-estatais nas relações internacionais.


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3 comments
Álvaro Panazzolo Neto
Álvaro Panazzolo Neto

Agradecemos o prestígio e ficamos felizes de poder ajudar nessa área tão ampla e complexa. Não deixe de conferir a coluna, que é atualizada constantemente. Um abraço

Anonymous
Anonymous

Olá, comecei nesse semestre a faculdade de Relações Internacionais. Ainda estou meio perdida, mas seu blog está me ajudando. Beijoss!