Conversando com a Teoria

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A tal da interdependência complexa…

Se, na semana passada, procuramos dar uma visão mais geral sobre o neoliberalismo, hoje trataremos dos principais teóricos e suas ideias. São eles Robert O. Keohane e Joseph S. Nye Júnior.

Ambos os autores partem de uma metáfora interessante: a política mundial não é uma tela sem costuras, mas uma tapeçaria confeccionada com diversas relações. Em outras palavras, não importam apenas as relações interestatais, mas também as transnacionais. Indivíduos ou grupos de um Estado se relacionam com outros Estados ou com indivíduos ou grupos – organizações internacionais, ONGs, movimentos sociais, etc. – de outros Estados ou internacionais. Por exemplo, uma obra da Camargo Corrêa em Moçambique ou a atuação do Greenpeace. Os atores não-estatais influem na política mundial, mesmo com que o Estado seja o principal ator.

Desta premissa, tem-se o conceito-chave de Keohane e Nye: a interdependência complexa. Como afirmamos na semana passada, a definição mais simples desse conceito é a “dependência mútua”, situação em que ocorre efeitos recíprocos entre países e atores diferentes. Sem tais efeitos, há apenas interconexão. Um exemplo: o protecionismo agrícola europeu afeta as próprias exportações e as do G-20 agrícola (interdependência), ao passo que não afetam Nepal ou Papua Nova-Guiné (interconexão). Embora a interdependência seja mais visível na dimensão econômica, ela se aplica a outras áreas (como a militar).

Três são as principais características da interdependência complexa: 1) a existência de múltiplos canais de comunicação e negociação, isto é, envolve uma diversidade de atores e espaço para a atuação deles, sendo as organizações internacionais as principais arenas; 2) a agenda múltipla, com uma variedade de temas, sem que um predomine sobre o outro e sem uma clara distinção entre o doméstico e o internacional; e 3) o uso decrescente da força militar. Detalhe: a interdependência, a despeito do aumento da perspectiva de cooperação, não pressupõe, de modo algum, a superação definitiva dos conflitos.

Neste ponto, é importante notar a relação entre interdependência e poder. Desnecessário dizer que um mundo mais interdependente é um mundo mais equilibrado. As assimetrias prevalecem. São medidas pelo poder. Para os autores, o poder pode ser definido tanto como a habilidade de fazer com que outros façam o que nós queremos, quanto com a capacidade de controlar resultados. A interdependência pode favorecer mais alguns, por imporem sua vontade e ter resultados, e desfavorecer outros. Aqui é onde se abre a possibilidade de ocorrência de conflito.

O poder, por sua vez, pode ser medido por outras duas variáveis: sensibilidade e vulnerabilidade. A primeira é um indicativo de impacto, a segunda diz respeito ao custo das alternativas disponíveis a partir do impacto. Ilustremos isso: se dois países dependem de quantidades similares da importação do petróleo e há uma elevação de seu preço, ambos são igualmente sensíveis, porém, aquele que puder recorrer a fontes alternativas de energia, será menos vulnerável.

[Por uma questão didática, limitaremos por enquanto a tratar deste conceito. A cooperação e o papel das instituições serão melhor trabalhados com a apresentação das Teorias do Jogos e o debate “Neo-Neo” (Neorrealismo x Neoliberalismo)]


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