Conversando com a Teoria

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Teoria dos Jogos: por Relações Internacinacionais mais científicas

Aqueles que gostam de números, lógica, raciocínio e testes encontrarão um amparo na Teoria dos Jogos. Aqueles mais aficionados por jogos podem considerar a Teoria dos Jogos como um grande pôquer das Relações Internacionais, em que o blefe é perigoso e a aposta é sempre um risco. É preciso saber quando blefar e quando se arriscar em função do fim desejado.

Essa teoria não é propriamente uma teoria das Relações Internacionais, foi desenvolvida pelos trabalhos dos matemáticos Von Neumann e Morgenstern durante a década de 1940 e, a princípio, serviu como um modelo para descrever e prever o comportamento econômico. Com o tempo, passou a ser incorporada por outras áreas do conhecimento, como a psicologia, antropologia, e chegou também às Relações Internacionais.

Por volta dos anos 1950, momento em que emergiu o Segundo Grande Debate das Relações Internacionais (revejam o post sobre ele aqui), cientificistas se contrapuseram aos tradicionalistas. Os primeiros defendiam uma abordagem mais científica para a disciplina, o que incluía o emprego da Teoria dos Jogos para analisar o comportamento dos atores internacionais em suas interações. Tal teoria encontrou expressão no neoliberalismo e no neorrealismo, de maneira a prever as possibilidades de cooperação e as perspectivas de conflito.

Mas, afinal, em que consiste a Teoria dos Jogos? Ela parte do pressuposto de que os atores envolvidos nos jogos (entenda-se, situações de interação) são “racionais” e, portanto”, buscam maximizar os seus lucros e minimizar as suas perdas. Em outros termos, os jogadores devem assegurar os melhores resultados para si mesmos. Isso não é tarefa fácil. Eles devem fazer escolhas, num conjunto finito ou infinito de possibilidades e estratégias, que envolve outros jogadores, sabendo que o resultado final dependerá das combinações decorrentes das escolhas feitas por todos envolvidos no jogo.

[Uma demonstração esquematizada da Teoria dos Jogos]

Não basta apenas o jogador fazer uma escolha entre todas as possíveis, é preciso também imaginar que escolha fará os demais jogadores para que se chegue no resultado mais favorável para si. Vejamos uma situação hipotética. Um país pode optar por se manter neutro numa guerra feita pelo seu principal aliado, para não ser afetado pelo conflito, entretanto, a neutralidade acaba tendo um custo: o encerramento de um contrato de transferência de tecnologia militar. Qual seria o melhor resultado para o esse país: a neutralidade ou a guerra?

É por isso que se organiza o raciocínio da Teoria dos Jogos numa lista de preferência, em que nem sempre se atinge o melhor resultado possível, alcançando, na maioria das vezes, a segunda melhor opção. O país supracitado não perde soldados, nem se desgasta economicamente, mas, por outro lado, não recebe tecnologia militar. Na próxima semana, com a demonstração de “jogos específicos”, construiremos uma escala de preferência para tornar mais claro este ponto.

Enfim, o que é importante saber é que as Relações Internacionais ganham aqui o reforço das ciências exatas, e, por meio de um modelo teórico, dedica-se a descrever e prever o comportamento de atores, apresentando-lhe escolhas, individuais e alheias, com vistas à formulação da melhor estratégia para atingir o melhor resultado possível.

[Para quem se interessar, fica a dica de um interessante artigo (aqui) da Foreign Affairs a respeito do Totalitarismo no século XX.]


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  1. […] Nos estudos de relações internacionais, um tema bastante conhecido nas análises da Teoria dos Jogos envolve o chamado “dilema do prisioneiro”, uma grande situação de incerteza, em que a confiança no “outro” se torna a base para negociações que visem otimizar os resultados para todos os envolvidos. Contudo, essa vertente teórica baseia-se na lógica de que os atores envolvidos são racionais e procuram a todo momento maximizar seus ganhos e minimizar suas perdas, com frequência independentemente do “outro” na negociação (veja mais sobre essa teoria em nossa coluna “Conversando com a Teoria”). […]