Conversando com a Teoria

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Se na semana passada procuramos apresentar a Teoria dos Jogos de maneira geral e demonstrar a sua importância para a análise do comportamento humano, em específico, a tendência para a cooperação ou para o conflito, nesta semana, o objetivo é apresentarmos os “jogos hipotéticos” propriamente ditos, cuja analogia encontra amparo na realidade.

Mesmo aqueles que não gostam de números, lógica, raciocínio, etc., não vão deixar de se impressionar com a linguagem facilitada pela qual estes jogos transmitem de situações reais, por meio de comparações. Isso os deixa ainda mais interessantes! Chega de papo, vamos aos jogos: dilema do prisioneiro, chicken game, stag hunt, assurance, deadlock. Não é possível trabalhar detalhadamente com cada jogo e aplicá-los na prática, mas esperamos apresentá-los ao leitor e despertar-lhe a curiosidade, estimulando-o a interpretar determinadas situações a partir desses jogos.

O mais tradicional dos jogos é o “dilema do prisioneiro”. Parte-se da situação em que dois prisioneiros, envolvidos com um crime, são colocados em salas separadas e questionados por um promotor, que não dispõe de provas suficientes para incriminá-los. São lhes dadas as opções incriminar o outro ou permanecerem calados. Se ambos permanecem calados, vão para a prisão por um tempo relativamente curto. Porém, se um incrimina e outro permanece calado, quem incriminou é libertado, enquanto o outro ficará por mais tempo. Se ambos se incriminam, vão para prisão por um tempo maior do que se tivessem ficado calados.

Assim, é feita uma lista de preferência: DC > CC > DD > CD. D = delatar/denunciar e C = cooperar (silêncio). O resultado mais provável é que ambos se denunciem, temendo o pior: ser bonzinho com o amiguinho pode ser ruim para si mesmo. Porém, seria melhor se ambos fossem bonzinhos. Poderíamos pensar na questão nuclear iraniana, o que acham? Por um lado, as potências ocidentais e o Irã trocaram farpas, enquanto Brasil e Turquia optaram pelo diálogo. Qual a melhor opção?

Seguimos jogando. Dois jogos interessantes aqui: chicken game e stag hunt. O primeiro diz respeito a uma situação típica de um racha norte-americano, com dois carros posicionados em rota de colisão. Assim que é dada a largada, ambos os carros partem em direção ao outro. Quem desviar é o “frango”, o covarde. Ambos podem cooperar e serem frangos, ou continuarem a trajetória e bancarem os “machões”, só que mortos. Pensem no caso da Crise dos Mísseis de 1962. Já o stag hunt simula uma situação de caçada, na qual dois caçadores podem se juntar e caçar algo maior, como um veado, ou cada um caçar sozinho e conseguir, no máximo, um coelho. Acordos bilaterais parecem ilustrar bem este jogo, como os acordos de livre comércio entre Estados Unidos e Chile.

Deixamos, por enquanto, de jogar dois jogos (assurance e deadlock). Os três que foram aqui apresentados são suficientes para entendermos situações de cooperação e conflito, variando de acordo com os comportamentos e expectativas dos jogadores envolvidos. Outro ponto importante é que nem sempre o melhor resultado para ambos é alcançado, pretendendo-se, assim, o resultado que minimize as próprias perdas.

É hora de cada qual escolher o seu jogo e jogar de acordo com as relações internacionais. Bom jogo a todos vocês!


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  1. […] entra a Teoria dos Jogos, de que já ouvimos falar algumas vezes no blog. Em algumas situações, atores racionais em uma situação de dependência mútua não podem ter […]