Conversando com a Teoria

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Gênero e Relações Internacionais

 

Um dos propósitos desta série mais atual do “Conversando com a Teoria (?)” é trazer ao debate uma evolução do modo de se estudar, compreender e entender o universo das Relações Internacionais. Conforme foi pontuada lá atrás no primeiro post, a ideia foi justamente sair do campo teórico e abranger o conceitual. Após passarmos por temáticas envolvendo governança, cyberespaço e redes, chegamos a um ponto bastante recente desta área de estudos: a questão de gênero, a qual envolve o Feminismo ou perspectiva (teoria) feminista das políticas internacionais. 

É um tema pouco estudado na academia. Podemos até dizer que ele é posto em segundo plano, não sendo recompensado por seu devido valor. Uma das maiores referências e especialistas do mundo sobre gênero é Ann Tickner e ela afirma com convicção que existe uma falha nas Relações Internacionais em não considerar estas questões nos debates. 

A Escola Feminista inaugurou uma nova fundação e novas fronteiras na agenda internacional. Buscou compreender qual o grau de participação e como as mulheres estão inseridas nas mais variadas políticas mundiais. Mais importante ainda, não procurou mudar apenas as visões hegemônicas existentes entre masculino e feminino, mas inaugurou uma nova metodologia para as questões políticas. Para as feministas, ignorar o papel das mulheres neste meio é como enfraquecer o entendimento das Relações Internacionais, propriamente ditas. 

Dois exemplos evidenciam este processo. Primeiro, o mercado de trabalho global. Segundo, o militarismo e as guerras. De acordo com dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), em 2007 as mulheres ganhavam cerca de 10% a menos que os homens. Nas indústrias de exportação de manufaturados, bem como no turismo, a grande maioria dos trabalhadores são do sexo feminino e concentram os piores salários em comparação com outros setores. Para a Escola Feminista, a “flexibilidade” e a “produção maximizada” nas fábricas são umas farsas. Do outro lado, nas guerras, mulheres são estupradas e impostas a outros tipos de dominação. No meio militar existem mudanças significativas, todavia em muitos casos o gênero é ainda uma relação de poder. Um acaba por predominar sobre o outro e confirmar a velha estrutura patriarcal que muito bem conhecemos. 

É uma perspectiva de questionamentos. O Feminismo veio para “complicar” as Relações Internacionais e é extremamente benéfico para nosso atual estágio de inquietudes. Trazendo questões sobre gênero, masculinidade, mulheres e assim por diante, é uma escola vital para o entendimento de alguns processos internacionais. Se ligarmos as relações de poder com gênero, veremos que existe um imenso rol de pesquisas possíveis. Se as Relações Internacionais também são sociais, é impraticável nos desvencilharmos dos embates sobre gênero. Mesmo não sendo colocadas em destaque por várias perspectivas, as feministas merecem seus lugares ao sol. 

PS1: Aos interessados nesta área, uma boa indicação de leitura, além dos textos da já citada Ann Tickner, é o livro “Gender Matters in Global Politics: A Feminist Introduction to International Relations” editado por Laura Shepherd. 

PS2: O Feminismo é ainda muito questionado nas Relações Internacionais. Não se sabe ao certo sua aplicabilidade e coesão teóricas. Procurou-se, aqui, dizer que a temática de gênero é necessária para alguns estudos da nossa área, assim como explicitado no mercado de trabalho e no ambiente militar.


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