Conversando com a Teoria

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Uma introdução ao Neorrealismo

Hoje vamos retomar nosso exercício de conversar com a teoria. Para relembrar, nos últimos textos, discutimos o contexto histórico das décadas de 1960 e 1970 como extremamente propícios para o desenvolvimento de novas teorias, depois tratamos do neoliberalismo e chegamos a um estudo de caso. Nesse contexto, observamos que o mundo mudava e, paralelamente, a capacidade explicativa das teorias até então também. Isso levou a uma busca pelo novo. Teorias que satisfizessem o rigor científico e fossem igualmente mais modernas para explicar o mundo.

Como o idealismo, nosso famigerado realismo também estava desgastado. Apesar disso, o princípio básico de busca pela segurança parecia ser mais válido do que nunca, principalmente nas décadas de 1950 e 1960. A corrida armamentista entre Estados Unidos e a União Soviética estava a todo vapor, dando origem ao termo MAD, do inglês “louco”, que também seria a sigla para mútua destruição assegurada (Mutually Assured Destruction). O mundo caminhava para uma tensão nuclear e a segurança era um tema que não podia ser descartado.

Todavia, a corrente teórica não apresentava respostas satisfatórias para esse problema. Eis que, em 1959, um senhor da Columbia University, Kennteh N. Waltz ao publicar sua tese de doutorado, O homem, o Estado e a Guerra, desenvolveu as primeiras vigas para que se levantasse um novo e mais resistente arranha-céu realista. Sua ideia é simples, porém capaz de fortalecer as bases de pensamento do Realismo. Para se alcançar a paz é preciso compreender a guerra. Para compreender a guerra, é preciso olhar para suas causas. E, estudando o todo da ciência política, ele pode perceber que os autores até então haviam buscado explicar as causas desse fenômeno por meio de três níveis de análise ou, como ele denominou, imagens.

Na primeira dessas imagens, as guerras ocorriam em conseqüência da natureza e do comportamento do homem. Os homens seriam seres extremamente egoístas, movidos por seus próprios interesses apenas e isso levaria aos conflitos. As outras causas poderiam ser consideradas como secundárias. Grosso modo, o egoísmo e auto-interesse geraria os conflitos. Na segunda imagem, os conflitos seriam resultado da organização dos Estados. E, portanto, para que se possam alterar as possibilidades de guerra seria preciso mudar tais organizações. Os dois exemplos mais interessantes de autores que consideravam essa explicação são Karl Marx e Hans Morgenthau (sim, aquele do realismo clássico! Se quiserem saber mais, clique aqui!).

A terceira e última imagem seria aquela que, na opinião do autor, seria a principal causa das guerras: a anarquia internacional, em outras palavras, a guerra seria resultado da ausência de qualquer organização para controlar os Estados. Esse foi o ponto de partida para sua teoria (que será abordada no próximo texto), considerada uma teoria sistêmica, analisando todo o sistema de Estados.

Para facilitar, pensemos em algo mais prático. Em se tratando de cinema, sempre teremos boas histórias e outros com histórias não tão desenvolvidas. E quais fatores seriam definidores na trama? Bom, teríamos que ter um roteiro interessante e instigante aliado a uma boa direção. Isso, nos olhos de Waltz, poderia ser a terceira imagem, aquela que definiria a principal causa de uma trama boa. A primeira e a segunda imagens poderiam ser fatores importantes, como fotografia e o elenco, mas que não são determinantes para uma boa trama.

Em suma, ao fazer uma análise de como os autores tratavam da guerra até o momento, Waltz já preparou o terreno para uma teoria que tratasse do sistema internacional e não somente da psicologia do homem ou da organização do Estado. Para o autor os elementos das demais imagens seriam importantes, mas o papel definidor dos conflitos, o que recebe o caráter de protagonista na hierarquia das causas das guerras deveria ser ser dado à anarquia. Seu texto iniciou a renovação do Realismo que, ao final da década de 1980, recebeu um tratamento teórico detalhado em outra obra sua. Mas, deixemos isso para a próxima semana. Até lá!


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