Conversando com a Teoria

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Damos continuidade à nossa conversa com a teoria falando “dos” Neorrealismos… Mas como assim? Afinal, quando falamos de Neorrealismo logo se pensa em Waltz – e foi dele que tratamos até agora; nada mais justo, considerando que foi o primeiro a articular essas ideias. Porém, vida de estudante de Relações Internacionais não é fácil, e mesmo um ramo de pensamento relativamente coeso como esse tem montes de subdivisões.

 


Bom, pra se ter uma ideia, para ficarmos apenas na divisão “histórica”, temos a divisão entre Neorrealismo e Realismo Neoclássico: enquanto o primeiro busca apenas determinar conseqüências da atuação dos Estados no sistema, o segundo entra no aspecto do comportamento e razões dos mesmos (assim como no Realismo “original”). Ou seja, grosso modo é mais ou menos como um conflito entre conseqüências e motivações, com as teorias analisando os mesmos fenômenos mas com objetivos diferentes.

 


Por outro lado, temos a divisão, essa mais conhecida, entre os Realismos Ofensivo e Defensivo. E vejam só: essas divisões (para ficar apenas nas mais conhecidas e simplificar), não se anulam, e sim se sobrepõem, formando na verdade um quadro analítico bastante complexo.

Robert Jervis

O Defensivo é o tradicional, que tem origem em Waltz (e sua tradição do balanço do poderes) e Robert Jervis, com suas teorizações acerca do dilema de segurança (brevemente, quando um Estado busca sua segurança gera insegurança para os demais Estados). O nome diz tudo – a sobrevivência do Estado vem da capacidade de lidar com a divisão de poder na estrutura internacional e se impor.

Entre os Defensivos se destaca Stephen Walt, um Neoclássico, que defende a teoria do Balanço de Ameaças, separando os termos “poder” e “ameaça” como elementos distintos na condução da política internacional: apenas quando uma soma de fatores de certo Estado como força bruta, proximidade geográfica, capacidades e intenções se mostrar como uma ameaça, é que outro Estado vai tentar crescer pra balancear aquele que ameaça.

Já a vertente ofensiva, apesar de ter ficado famosa com John Mearsheimer, tem origem na teoria hegemônica vista em Robert Gilpin (aquele da economia), em que a estabilidade viria de um Estado hegemônico no sistema. Assim como o ramo defensivo adota as idéias de Waltz, o ofensivo parte da hegemonia de Gilpin, mas indo pelo lado de que não basta para o Estado se adaptar à divisão de poder da estrutura, mas sim “criar” condições ideais.

John Mearsheimer

O mais famoso dessa leva, Mearsheimer, por exemplo, seria um Neorrealista Ofensivo – sua teorização da política de grandes potências evoca uma posição de destaque para os EUA, mesmo que apenas como um hegemon regional. Mas não se enganem com o título! Ser ofensivo não significa necessariamente ser favorável à guerra. Mearsheimer é um dos grandes críticos da condução da guerra no Afeganistão e do modo como Israel lida com os Palestinos; ao mesmo tempo, considera um erro a aproximação econômica com a China (que seria estar municiando um futuro inimigo). No caso, ser “ofensivo” seria apenas se tornar “menos amistoso”…

Muito confuso? Não é tão ruim quanto parece – o Neoliberalismo consegue ser ainda pior quando falamos em ramificações. É claro que essa análise varia de autor para autor – há quem considere, por exemplo, Barry Buzan (um autor mais ligado à Escola Inglesa) e Samuel Huntington (aquele do “choque de civilizações”) autores neorrealistas. Rotulações à parte, o que importa é que para esses autores o Estado ainda é o ator principal, e a distribuição de poderes no sistema sempre leva à consideração, para o bem ou para o mal, do conflito.

Um artigo interessante sobre o tema (e com uns quadros bastante explicativos) pode ser visto aqui. Até a próxima!


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3 comments
Álvaro Panazzolo Neto
Álvaro Panazzolo Neto

Caio, ficamos contentes com o feedback. A ideia da coluna é justamente essa, a de trazer as teorias de um jeito bem claro e leve, sem as amarras da academia. Agradeço o comentário, e espero que o blog continue lhe sendo útil.

Caio
Caio

Estou estudando esse conteudo na PUC-SP e esse texto foi realmente util para mim, escrito de modo conciso e bastante explicativo. Está me ajudando bastante a entender melhor as teorias de RI e suas entranhas. Muito bom o texto e o site, pretendo continuar seguindo outros posts! Parabens!

Harley
Harley

Álvaro Panazzolo Neto,A capacidade de sua analise , neste tema de tamanha complexidade, demonstra o conhecimento adquirido e desenvolvido em suas longas horas de estudos.Podemos, visualizar com clareza ,a política , dos políticos, principalmente nas distribuição dos poderes, em nosso querido Brasil. Belíssimo texto .Parabéns, E até a semana. Harley L.F.