Conversando com a Teoria

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Nas últimas semanas, falamos de Neorrealismo e muita teoria. Por mais que a ideia seja simplificar, é muito mais fácil de entender quando pensamos em um caso concreto, e o Neorrealismo não foge à regra. Um exemplo muito ilustrativo dessa teoria e que está bastante fresco na memória de todos é o caso da intervenção na Líbia.


Recapitulando, o regime de Muamar Kadafi/Ghadafi/Gandalfi começou a enfrentar protestos estimulados pelos levantes nos países da região. Como todo regime opressor, mandou tanques e aviões atacarem os protestos e logo aquilo tomou a forma de uma guerra civil prolongada. A ONU, atendendo aos apelos da comunidade internacional, autorizou uma intervenção com zona de exclusão aérea e possibilidade de ataques para proteger a população civil. Tudo muito bonito, e o resto é história – Kadafi caiu (e foi linchado na primeira oportunidade), o Conselho Nacional de Transição está tentando evitar que a Líbia e torne uma nova Iugoslávia (aliás, o provável destino da Síria) e a coisa vai de mal a pior por aqueles lados.

E o Neorrealismo com isso? É claro que o foco é na ação das potências ocidentais, que protagonizaram os ataques aéreos e deram uma mãozinha aos grupos de oposição na Líbia. Vamos pensar nas duas “condições” no Neorrealismo, a estrutura e a distribuição de capacidades. Para um analista dessa vertente, o caso da Líbia é bastante claro. Vejam que os principais interessados na remoção de Kadafi do poder eram os países europeus… que poucos meses antes eram seus aliados; mas por quê isso? O regime de Kadafi oferecia vantagens a suas empresas, especialmente de petróleo. Nesse sentido, havia uma distribuição clara de recursos de poder, estável. Porém, com os protestos e a reação de Kadafi, países como França e Inglaterra se viram na situação de rever a posição quanto ao regime líbio – não pegaria bem ficar a favor de um governo que massacra civis manifestantes, e seria proveitoso garantir desde já o acesso aos grupos de poder emergentes quando viesse a iminente queda de Kadafi. Nada mais pragmático. Por outro lado, Kadafi já desconfiava do apoio dos europeus e ameaçava suas empresas – mas sem cogitar qualquer reação contra empresas russas ou chinesas. Basta ver o resultado da votação da resolução do Conselho de Segurança que aprovou a intervenção: os países que se abstiveram foram os que não tinham nada a perder com a situação (ou até ganhavam), como China, Rússia, Brasil e Índia.

Havia uma estrutura, que limitava as ações (o sistema ONU), mas que não impediu que se aprovasse por meios legais (apesar da justificativa ser meio controversa…) a ação orquestrada pelos países interessados para que mantivessem sua distribuição de poder. Alterações nas condições do sistema levaram os países interessados a agir para se acomodarem em uma nova realidade. O resultado dessa intervenção, para França e amigos, foi a continuidade do acesso a recursos estratégicos e a manutenção de uma ordem de poder regional que lhes seja conveniente. Aliás, lembra muito a “criação de condições” do Neorrealismo ofensivo, não? Pois é, nada nesse mundo é mera coincidência…

Essa é uma análise muito superficial (que nem mexe nos temas mais espinhosos desse caso), mas que mostra como o Neorrealismo pode servir para entender fatos contemporâneos. Na próxima semana, vamos lidar com um caso que já analisamos e contrapor ao que já vimos com o Neo-liberalismo. Até lá!


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