Conversando com a Teoria

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Nas últimas postagens, terminamos nossa exposição acerca do Neorrealismo e postamos nosso primeiro estudo de caso sobre assunto. Desta vez, vamos retomar aquela nossa breve análise sobre o Neoliberalismo (clique aqui para conferir) e buscaremos explicar os mesmos eventos pela ótica neorrealista.

Como já dissemos em nosso outro texto, a União Europeia é o exemplo mais bem sucedido de integração atualmente. E, mesmo assim, o bloco tem enfrentado severas dificuldades que nos levam a questionar a manutenção dessa integração. Os neoliberais apontaram que as instituições seriam uma forma de os Estados superarem a condição de anarquia e adotarem posturas mais cooperativas. Em outras palavras, por projetos de integração ou outras vias de diálogo seria possível que os países agissem mais de forma “comunitária” e menos “unitária”. 

Agora, pelas lentes do neorrealismo, o projeto de integração europeia e a crise do Euro ganham outros contornos. Primeiramente, avaliando a distribuição de capacidades, percebemos que, embora a UE seja um bloco, são poucos os países ali que podem ser considerados potências. A Alemanha, a França e o Reino Unido são os únicos com status de potência mundial, se considerados isoladamente. Isso já nos dá uma pista importante sobre sua atuação em caso de instabilidade. Tanto que bastou a crise estourar na Grécia, Portugal, Itália e Espanha para essas potências recuarem. Nenhuma delas abraçou a ideia de medidas que representassem grandes perdas para suas economias e defenderam ações de austeridade dos países em crise em detrimento de uma ação conjunta. A menos flexível foi a Alemanha que esperou sentir-se em uma sinuca de bico e ver sua economia ameaçada para agir. E, vale dizer que não agiu pelo bloco, mas agiu em benefício próprio, para evitar efeitos severos sobre a economia alemã. É nesse ponto que um neorrealista provavelmente encherá a boca para criticar os neoliberais. 

A União Europeia (como qualquer outro projeto de integração), para eles, não é capaz de retirar a ação da estrutura sobre os Estados. Em outras palavras, a situação de anarquia e a preocupação com a distribuição de capacidades não pode ser superada, é uma questão estrutural. Por isso, a Alemanha e as outras potências europeias se preocupam primeiro com a sua posição econômica no sistema e depois, em um segundo plano, pensam em como agir em caso de crise dos demais parceiros da zona do Euro. Toda a ideia de bloco, ação conjunta e união seriam, ao final das contas, muita retórica e pouca prática.

Até mesmo a última ação do Banco Central Europeu de injetar aproximadamente 1 trilhão de euros nos principais bancos europeus (clique aqui para mais sobre isso) apenas teria ocorrido porque as potências da UE viram as suas próprias economias ameaçadas e não para benefício do bloco. O importante seria manter a distribuição de poder relativamente favorável às potências, o que encorajou a ação, já que suas economias poderiam estar perdendo em competitividade no cenário mundial.

Essa é uma breve e até simplista forma de analisar o que está ocorrendo na Zona do Euro pela ótica neorrealista. Mas, é bem reveladora porque mostra as preocupações dessa corrente e nos permite ver outros elementos que pelo neoliberalismo provavelmente não veríamos. Até a próxima semana!


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2 comments
Daniel Alves
Daniel Alves

Ótimo artigo!Vale destacar dois pontos:1. Nem Alemanha e nem França se beneficiariam caso saíssem da Zona do Euro unilateralmente e nem mesmo se beneficiariam caso qualquer país periférico (PIIGS) saísse da união monetária.2. O BCE é independente, portanto, oficialmente, ele não está respondendo à demanda de nenhum país em específico. Alinha-se a este argumento o fato de França e Alemanha discordarem entre si sobre a função do BCE na crise (França defende eurobonds; Alemanha defende a não atuação do BCE no mercado).

Raphael Lima
Raphael Lima

Olá Daniel,Primeiramente, obrigado por seu comentário. A participação de todos é extremamente importante para o debate. Bom, seus dois pontos são extremamente pertinentes e podem emergir como uma possível crítica à visão neorrealista. Pois, para essa linha de pensamento, elementos como as organizações internacionais ou mesmo os Bancos Centrais, não são construídos e/ou agem de maneira completamente independente do cálculo estratégico de capacidades das grandes potências. A distribuição de capacidades (poder econômico, político ou militar) sempre será considerada na ação desses países,pois são determinantes para uma mudança estrutural, algo que não é de interesse das potências centrais.Por exemplo, a saída da Grécia da zona do Euro, como você bem colocou, poderia não ser interessante para os grandes, mas não deixa de ser considerada, nem que seja uma hipótese distante. E, mesmo a ação do BCE, teria de passar pelo aval, nem que seja indireto, desses atores. Evidente que essa é uma visão teórica, generalista e com um intuito universalista. Mas também, como disse no texto, é capaz de fornecer substratos interessantes para discussões mais aprofundadas sobre o papel e a ação das grandes potências em blocos como a UE.Um abraço,